Brasil: Professor estadual com licenciatura ganha em média R$ 16,95 por hora

Os professores das redes estaduais e do Distrito Federal ganham R$ 16,95 a cada 60 minutos que passam dentro da sala de aula com os estudantes, ou fora dela preparando atividades, provas e relatórios.

O valor médio da hora nacional faz parte de um levantamento feito pelas equipes de reportagem do G1 em todo o país, junto aos governos estaduais e sindicatos, entre abril e junho deste ano.

Considerando a carga horária de 40 horas semanais de trabalho, o salário-base médio é de R$ 2.711,48 para professores com diploma de licenciatura no início da carreira.

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O levantamento tomou como base essa categoria de docência porque as redes estaduais são as principais responsáveis pelo ensino médio, nível em que, para lecionar, é preciso concluir o curso de licenciatura.

Em média, o professor da rede pública estadual formado em licenciatura (ou seja, com diploma do ensino superior), recebe 57% do salário mediano dos trabalhadores brasileiros com formação equivalente. Segundo uma comparação feita pelo Cadastro Central de Empresas (Cempre) com base em dados de 2013, e divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na semana passada, o salário médio de trabalhadores com diploma de nível superior foi de R$ 4.726,21.

Gratificações
Em entrevista ao G1, o ministro da Educação Renato Janine Ribeiro questionou o levantamento. Segundo ele, os dados levam em conta apenas os salários-base e exclui as gratificações, um método que ele classificou como “histórico” e composição salarial dos professores. “Ao longo do tempo os estados foram adotando formas diferentes de assalariar, e muitas vezes foi uma forma de dar aumento de verdade [para o professor]”, afirmou o ministro.

“São formas para ir compondo um salário. Você adota formas diferentes, mas chega uma hora em que há muita inconsistência, então é difícil fazer uma tabela de comparação. [Se um professor recebe gratificação por atuar em sala de aula, mas depois vai para outro setor], criam-se outros modos de não perder a gratificação, vão ganhando complexidade muito grande”, explicou.

Maior salário
O estado que paga o maior salário, segundo o levantamento, é Mato Grosso do Sul. Lá, os professores com licenciatura recebem o salário-base de R$ 3.994,25 pelas 40 horas semanais, jornada padrão, de acordo com informações do governo estadual.

No outro extremo da tabela, o estado com o menor salário-base é Santa Catarina. Segundo o governo catarinense, os professores com licenciatura que trabalham 40 horas por semana ganham salário-base de R$ 1.917,78, mesmo valor do piso nacional, obrigatório por lei para os professores com formação mínima de nível médio.

Fórum vai acompanhar salários
Em entrevista ao G1, Binho Marques, secretário de Articulação com os Sistemas de Ensino do MEC, afirmou que o ministério vai criar um fórum com a participação do governo, sindicatos e gestores estaduais e municipais para acompanhar e propor melhorias à lei que define o piso salarial nacional para os professores.

Ele afirmou ainda que a variação salarial entre os estados mostra a diversidade de planos de carreira locais. “É muito difícil fazer essa comparação, porque acaba sendo um pouco injusta. Tem estado que investe muito com salário do professor, mas o piso é baixo”, disse ele.

Segundo Marques, há estados que “achataram” a carreira e, por isso, o salário inicial é alto, mas o teto salarial da carreira não é muito superior ao piso. Outras redes, porém, têm um plano de carreira com muitos degraus, o que faz com que o salário inicial seja baixo, mas o professor tenha mais oportunidades de subir na carreira.

Santa Catarina
A Secretaria de Educação de Santa Catarina, que, de acordo com o levantamento, é a única rede estadual a pagar aos professores licenciados o piso salarial dos professores de nível médio, afirma que outros estados já incorporaram a chamada “regência de classe”, por isso o valor é maior.

Segundo a pasta, o governo negocia o salário com o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina (Sinte-SC). De acordo com a Secretaria, o valor de R$ 1,9 mil é “irreal” como salário-base, pois os professores recebem gratificações e o salário sobe para quase R$ 2,4 mil.

O levantamento considera apenas o vencimento inicial, excluindo as gratificações, que podem chegar a mais de 100% do valor do salário-base. É o caso do Maranhão, onde 100% dos professores em sala de aula recebem a Gratificação de Atividade do Magistério (GAM), no valor de 104% do salário-base. Assim, a folha de pagamento dos docentes maranhenses sobre para pelo menos R$ 4.985,44.

Jornada padrão e gratificação
Como cada estado tem autonomia para definir que tipo de contrato firma com os servidores da educação, as jornadas de trabalho variam entre 16 e 40 horas semanais.

Para poder comparar a remuneração entre os estados, o G1 converteu os salários-base referentes às jornadas reais para o equivalente à jornada de 40 horas.

Em alguns estados, o salário bruto dos professores é mais alto, porque o governo incorpora gratificações e subsídios, como auxílio-saúde, vale-transporte, vale-refeição e remuneração extra pela atuação em sala de aula, ou para professores que trabalham em áreas distantes ou consideradas de risco.

Há estados, porém, que não oferecem remuneração extra. Mato Grosso do Sul e Minas Gerais estão neste grupo, além de Espírito Santo, Goiás e Tocantins. Outros estados não informaram se oferecem ou não gratificação: Amazonas, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e São Paulo.

No Paraná, por exemplo, a secretaria detalhe que professores recebem a remuneração mensal de R$ 3.194,70, incluindo benefícios e gratificações, e alega que o salário médio com benefícios é de R$ 4,721,48.

Lei de 2008
A lei que estabelece o piso salarial nacional para professores é de 2008 e determina diversas obrigações municípios, estados e à União.

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Além de dever pagar pelo menos o valor fixado por lei para professores com formação de nível médio e jornada de 40 horas semanais, os governos devem ajustar o salário para outras jornadas de trabalho segundo o piso.

Ainda de acordo com a lei, na jornada total, pelo menos um terço das horas trabalhadas pelos professores devem ser fora da sala de aula (a chamada “hora-atividade”).

Em alguns estados, porém, o cargo de professor com diploma de ensino médio já foi extinto, e só são contratados docentes que tenham formação de ensino superior. É o caso, por exemplo, do Amazonas e do Espírito Santo. Em outros estados, como no Ceará, há apenas algumas dezenas de professores nessas condições, e eles já não atuam mais em sala de aula.

Veja a seguir o salário-base dos professores (com diploma de licenciatura e jornada de 40 horas semanais) em cada rede estadual do Brasil:

ACRE*
Remuneração por hora: R$ 16,76
Salário-base mensal: R$ 2.681,27

ALAGOAS
Hora-aula: R$ 16,57
Salário-base mensal: R$ 2.651,82

AMAPÁ
Remuneração por hora: R$ 21,35
Salário-base mensal: R$ 3.416,32

AMAZONAS
Remuneração por hora: R$ 20,43
Salário-base mensal: R$ 3.269,49

BAHIA*
Remuneração por hora: R$ 12,04
Salário-base mensal: R$ 1.925,96

CEARÁ
Remuneração por hora: R$ 12,05
Salário-base mensal: R$ 1.927,43

DISTRITO FEDERAL
Remuneração por hora: R$ 24,12
Salário-base mensal: R$ 3.858,87

ESPÍRITO SANTO*
Remuneração por hora: R$ 19,83
Salário-base mensal: R$ 3.172,08

GOIÁS
Remuneração por hora: R$ 16,06
Salário-base mensal: R$ 2.570,08

MARANHÃO*
Remuneração por hora: R$ 15,27
Salário-base mensal: R$ 2.443,84

MATO GROSSO*
Remuneração por hora: R$ 23,76
Salário-base mensal: R$ 3.802,09

MATO GROSSO DO SUL
Remuneração por hora: R$ 24,96
Salário-base mensal: R$ 3.994,25

MINAS GERAIS*
Remuneração por hora: R$ 15,16
Salário-base mensal: R$ 2.425,50

PARÁ
Remuneração por hora: R$ 12,05
Salário-base mensal: R$ 1.927,60

PARAÍBA*
Remuneração por hora: R$ 13,30
Salário-base mensal: R$ 2.128,51

PARANÁ
Remuneração por hora: R$ 15,46
Salário-base mensal: R$ 2.473,22

PERNAMBUCO
Remuneração por hora: R$ 12,73
Salário-base mensal: R$ 2.036,16

PIAUÍ
Remuneração por hora: R$ 16,47
Salário-base mensal: R$ 2.634,65

RIO DE JANEIRO*
Remuneração por hora: R$ 18,43
Salário-base mensal: R$ 2.948,38

RIO GRANDE DO NORTE
Remuneração por hora: R$ 16,78
Salário-base mensal: R$ 2.684,43

RIO GRANDE DO SUL*
Remuneração por hora: R$ 14,57
Salário-base mensal: R$ 2.331,38

RONDÔNIA
Remuneração por hora: R$ 15,61
Salário-base mensal: R$ 2.498,00

RORAIMA*
Remuneração por hora: R$ 22,18
Salário-base mensal: R$ 3.548,93

SANTA CATARINA
Remuneração por hora: R$ 11,99
Salário-base mensal: R$ 1.917,78

SÃO PAULO
Remuneração por hora: R$ 15,10
Salário-base mensal: R$ 2.415,89

SERGIPE
Remuneração por hora: R$ 12,15
Salário-base mensal: R$ 1.943,53

TOCANTINS
Remuneração por hora: R$ 22,39
Salário-base mensal: R$ 3.582,62

*Nesses estados, a jornada padrão varia, mas, para efeito de comparação, o valor do salário-base foi convertido para 40 horas semanais:
– Jornada de 16 horas: Rio de Janeiro
– Jornada de 20 horas: Bahia, Maranhão e Rio Grande do Sul
– Jornada de 24 horas: Minas Gerais
– Jornada de 25 horas: Espírito Santo e Roraima
– Jornada de 30 horas: Acre, Mato Grosso, Paraíba, Rio Grande do Norte

Com informações do G1.

Ricardo Semler: “Tortura escolar nunca mais!”

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Se eu fosse estudante hoje faria milhares de bótons com a hashtag #chegadetortura para ostentar na sala de aula. Hoje, terça-feira (28/4), é o Dia Mundial da Educação, e cá estamos nós tentando melhorar a gestão – reciclagem e firulas– de um sistema medieval.

Paremos de culpar professores, acusando-os de corporativistas e letárgicos. Cessemos o giro da engrenagem da tortura que mói os alunos, vítimas da ditadura das aulas maçantes. O conceito da escola atual caducou. Fim. Os pais não saberiam hoje achar uma raiz quadrada, e são incapazes de dizer qual a capital da Holanda ou da Suíça. Tentem. Ou, então, citem dois escritores românticos brasileiros, diferenciem um sujeito oculto de um indeterminado ou mesmo lembrem de dois elementos seguidos da tabela periódica.

A escola que temos é resultado da ideia iluminista de que tudo precisa ficar guardado na cabeça. Na era do Google, é um crime insistir no método da decoreba. Argumenta-se que a meninada está aprendendo a aprender. Que balela: quem tem filho sabe que eles aprendem a andar e até a falar sem ajuda –já chegam de fábrica com a capacidade de aprender a aprender.

Os pais não têm coragem de confrontar a escola. Nas reuniões discutem a inclusão de alimentos orgânicos na merenda e a fila na saída do colégio. E se eximem: fiz o que pude, minha filha cursou uma boa escola, agora seja o que Deus quiser.

O tal mercado de trabalho, então, é um algoz de pijama. Ou alguém acredita que passar por uma escola rigorosa, usar uniforme e decorar a tabuada prepara alguém para trabalhar nos Instagrams da vida? Queremos preparar nossos filhos para trabalhar na General Motors de 1952?

Indignado e frustrado, comecei o Instituto Lumiar, que é administrado pela Fernanda, minha mulher. Por lá passaram os nossos cinco pequenos. A meta era redesenhar com pessoas do ramo uma escola contemporânea. Foi fácil criar e adotar escolas, inclusive uma pública, que conseguem notas muito mais altas do que conseguiam antes.

Ideias novas de educação envolvem mistura de faixas etárias e crianças que escolhem a ordem do que querem aprender. Incluem momentos diários em que os educandos olham as notícias e escolhem algo para investigar. Além de aplicativos que medem diariamente e por anos o domínio de cada aluno sobre as várias áreas do conhecimento.

Esse monitoramento digital dá baixa nos itens dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação, que são muito mais modernos e flexíveis do que o aplicado pelas escolas. Estas acham mais fácil seguir o método centenário: os alunos fazem de conta que entenderam, a escola finge que ensinou, e os pais fingem que acreditam.

Há alguns anos falei em um simpósio para 59 ministros de Educação. Conversando com o finlandês que desenhava o currículo deles, descobrimos que éramos partidários do fim das disciplinas estanques, um sistema esquizofrênico. No mês passado, a Finlândia anunciou que vai eliminar as disciplinas como matemática e línguas, e trocá-las por tópicos de interesse.

A Finlândia vem caindo no ranking do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), cedendo lugar para as ditaduras escolares. Os países que sobem a cada ano são os que têm as escolas mais rígidas, horários mais longos e o suplício das provas reducionistas.

Por aqui, o defeituoso Pisa virou estrela guia. Vale perguntar: queremos subir no ranking de maneira truculenta e primitiva ou acompanhar a Finlândia em modernidade intelectual? O fato de estarmos tão mal colocados não justifica focarmos no básico, do jeito antigo e inútil. É hora de desenharmos escolas que resgatem a magia do conhecimento.

Vamos nos irmanar com a Finlândia. Seria muito mais eficaz saltarmos por cima de métodos arcaicos do que fazermos mudanças marginais numa metodologia obsoleta. Pois é o que estamos fazendo: disfarçando tortura usando capuz de rigor pedagógico. Deixemos os saudosos da ditadura sozinhos na chuva no meio da avenida Paulista.

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RICARDO SEMLER, 55, empresário, é sócio da Semco Partners e fundador do Instituto Lumiar, que administra as escolas Lumiar. Foi professor visitante da Harvard Law School e professor do MBA no MIT Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA). Texto publicado originalmente no dia 28 de Abril de 2015 no Jornal Folha de São Paulo.

MEC trabalha na criação de uma carreira nacional dos professores da EDUCAÇÃO BÁSICA

O ministro da Educação do Brasil, o filósofo Renato Janine Ribeiro afirmou que pretende trabalhar na criação de uma carreira nacional dos professores da educação básica.

A educação básica, que vai da creche até o ensino médio, será prioridade do Ministério da Educação (MEC), no que diz respeito à preservação de recursos, afirmou o novo ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, que assumiu o cargo no dia 6/4. “Todos os ministros dizem que o foco principal é a educação básica. Com certeza é, e com certeza tem que ser, e isso é mais ou menos óbvio: as crianças são as mais vulneráveis”, disse ele, em entrevista coletiva, logo após receber do ministro interino, Luiz Cláudio Costa, o comando da pasta.

Filósofo Renato Janine Ribeiro será o novo ministro da Educação no Brasil

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Renato Janine RIBEIRO (Araçatuba, São Paulo, 1949) é um professor de filosofia brasileiro. Atualmente é professor-titular da cadeira de Ética e Filosofia Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Recebeu o Prêmio Jabuti em 2001, bem como foi condecorado com a Ordem Nacional do Mérito Científico, em 1998, e com a Ordem de Rio Branco, em 2009.

A presidenta da República Dilma Rousseff convidou, nesta sexta-feira (27/3), o professor doutor Renato Janine Ribeiro para assumir o cargo de ministro da Educação, segundo nota divulgada pela Secretaria de Imprensa da Presidência da República (veja aqui).

A posse do novo ministro será no dia 6 de abril.

Renato Janine RIBEIRO é um filósofo brasileiro conhecido sobretudo por seus trabalhos sobre o pensador inglês Thomas HOBBES, acerca da cultura política nas “sociedades ocidentais dissidentes” (entre as quais inclui o Brasil e a América Latina) e por sua participação no debate político brasileiro.

Desde 1993, é professor titular de Ética e Filosofia Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH), onde começou a lecionar em 1975, tendo-se porém afastado do exercício deste cargo em 2004 para assumir a Diretoria de Avaliação da Capes, órgão legalmente incumbido da avaliação e eventual fechamento dos programas de pós-graduação existentes no Brasil, que exerceu até outubro de 2008.

Concluiu o curso universitário de filosofia na USP; depois, fez mestrado na Université de Paris I Pantheon-Sorbonne em 1973. Mais tarde, já de volta ao Brasil, concluiu o seu doutorado pela Universidade de São Paulo (USP). Iniciou-se academicamente trabalhando em cima do pensamento de Thomas HOBBES, e depois abrangeu seus temas, interessando-se por filosofia política.

Veja abaixo, uma recente entrevista do filósofo na Revista Brasileiros onde ele reflete vários aspectos do contexto político. Entre vários temas, ele ressalta que os avanços sociais do governo federal se deram apenas pelo consumo, critica a falta de diálogo da presidenta Dilma Rousseff, o projeto policialesco da oposição, a onipresença do Judiciário e muito mais.

[…]

Renato Janine Ribeiro é um filósofo em sintonia com o seu tempo. Professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo, ele começou a carreira em meados dos anos 1970, estudando o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679). Não demorou a voltar-se para a reflexão e o debate sobre temas da sociedade atual, o que agora faz em diferentes cenários – da academia às redes sociais. Sem negar os avanços sociais registrados nos últimos 12 anos no Brasil, o filósofo lamenta que eles tenham se dado pela via do consumo: “O grande flagelo ético do Brasil é a miséria. Se o PT batesse nessa tecla o tempo todo e dissesse que está combatendo o problema, teria uma imagem ética que poderia sobrepor à discussão de corrupção”.

Em um momento conturbado da política nacional, Janine Ribeiro critica o isolamento da presidenta Dilma Rousseff, o excesso de protagonismo do Judiciário e a postura da oposição: “Há toda uma crônica policial que favorece o PSDB, assim como uma mídia que é simpática aos tucanos e detesta o PT. Isso leva o PSDB a ter um projeto mais policial do que político”. Para o filósofo, a proposta de impeachment só interessa à oposição “e, talvez, a uma parte da mídia”. Seja como for, na sua opinião, o melhor seria Dilma Rousseff terminar o mandato em condições razoáveis: “Qualquer outra coisa, seria dramático”.

Brasileiros – Como o senhor está vendo o momento político?

Renato Janine Ribeiro – Com muita preocupação. As eleições são recentes e pelo menos quatro chefes do poder Executivo estão com problemas sérios. A presidente da República e os governadores de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul têm problema parecido, o descompasso entre o que prometeram e o que estão fazendo. Em São Paulo, a questão é a falta d’água. Alckmin alegou que não faltaria. No Paraná, o caso é mais acentuado, porque o governador realmente entrou em choque com os professores. Organizei inclusive um abaixo-assinado em apoio às universidades estaduais.

Que mudanças o governador Beto Richa está fazendo?

Ele simplesmente cortou o dinheiro. Cortou a transferência de verbas de custeio para algumas das principais universidades do Estado, como a de Londrina. No geral, foram várias medidas. O fato é que, no Paraná, o orçamento não está fechando. De alguma forma, em algum lugar, vai ter de cortar.

E ele acaba de ser reeleito.

Assim como Dilma e Alckmin. São três casos de governantes reeleitos que faltaram com o que prometeram. No Rio Grande do Sul é um pouco diferente, porque o governador José Ivo Sartori é mais um personagem folclórico, que se elegeu em um vazio político. A promessa implícita era de honestidade, mas ele está demonstrando falta de cuidado no gasto público. Um exemplo foi o uso de helicóptero para fazer um passeio. Enfim, são quatro lugares com problema. E o problema se torna candente no Paraná e na esfera federal.

Em São Paulo, a impressão que se tem é que nada pega em Alckmin, como se a crise hídrica fosse descolada da figura do governador.

Isso e os maus indicadores na Educação, na Saúde, em tudo mais. Nada basta para que os paulistas enjoem de um partido que não cumpriu o que prometeu. O PSDB sempre prometeu competência, qualidade de gestão. E depois de 20 anos seguidos de gestão em São Paulo deu esse problema.

Tem uma explicação para isso?

É difícil estabelecer, fora o fato de o Estado de São Paulo ter se tornado muito fortemente antipetista. Nesse sentido, qualquer crítica que tiver cheiro de esquerda é desqualificada. Não pega por uma questão ideológica, contrária ao PT. Qualquer sugestão na direção do PT não é sequer escutada por uma boa parte da população.

Esse fenômeno não ocorre em todo o Brasil? Não há um fortalecimento da direita?

Há o fortalecimento da direita, mas não é igual. No Nordeste, a partir da Bahia, não é assim. No próprio Estado de Minas, que elegeu um governador do PT, não é assim. Esse fenômeno está concentrado sobretudo em São Paulo, no Paraná, em alguns Estados que deram vitória muito clara a Aécio Neves. Não é um fenômeno nacional, embora seja verdade que, mesmo nos Estados em que o PT teve maior votação, uma parte significativa do empresariado é contra o PT.

Como é esse avanço?

A direita tem avançado em boa parte por causa da pouca disposição da esquerda em fazer o enfrentamento de ideias. E isso não se faz postando no Facebook fotos de Hugo Chávez de manhã à noite. A pessoa tem de conquistar quem discorda dela ou está indeciso. Não tem de ficar reforçando a própria turma. Hoje, na política brasileira, tucano fala para tucano, petista fala para petista. Ninguém convence ninguém. Com isso, se destrói um dos elementos básicos da política, que é a persuasão.

O movimento a favor de um impeachment está crescendo de forma perigosa?

O único lugar que as pessoas saíram à rua, em massa, protestando, pressionando, foi o Paraná, contra o governador. Lá, um Estado muito conservador, os professores tiveram, inclusive, a iniciativa de irem à casa dos deputados que eles elegeram e que apoiam Richa para cobrar deles uma posição. O caso federal é bem diferente, porque não tem uma mobilização nas ruas comparada à do Paraná. Pelo menos, não por enquanto. E o segundo ponto é que, a presidenta ou presidente, como quiser, Dilma não deu satisfação a ninguém.

Esse é um problema.

Esse é o grande problema. Porque Richa e os seus, de alguma forma, estão falando. Não convencem, mas estão falando. Agora, no plano federal, o PT não está dando nenhuma satisfação.

É um problema de comunicação ou é deliberado?

Deliberado não é, mas não é apenas uma questão técnica. Assessor ruim eles têm. Isso é óbvio. Só um maluco cumprimentaria a Beija-Flor no perfil oficial da Dilma, como foi feito. Falasse sobre o Carnaval da Bahia, falasse de Norte a Sul. É muito simples. Bastava ter alguma inteligência.

A escola com patrocínio da ditadura de Guiné Equatorial.

Na verdade, é uma concepção de governo que não precisa prestar contas à sociedade. É isso que a Dilma está mostrando. Uma concepção de governo muito inquietante, porque é, no limite, autoritária. Adota as medidas que precisam ser adotadas, mas não explica. E não explica por que prometeu fazer uma coisa e está fazendo o contrário.

É o que aconteceu na reorientação da política econômica?

Isso. Os cortes nos programas sociais também poderiam ter sido explicados. A questão do defeso, da compensação para o pescador no período em que ele não pode trabalhar. Poderia ter explicado que o defeso é alvo de muita fraude. Poderia ter colocado isso mais a público. Não colocou. Não há nenhuma satisfação sendo dada. E os ministros continuam tendo as orelhas puxadas cada vez que falam uma coisa de que ela não gosta. Não há autonomia dos ministros.

De nenhum deles?

Os ministros com mais autonomia são o Joaquim Levy e o Juca Ferreira. O primeiro justamente por ser quase uma intervenção tucana na economia, um símbolo do descumprimento da promessa de campanha. O segundo está em uma pasta para mim fundamental, mas não para o governo, que é o Ministério da Cultura. Mas Juca Ferreira tem força no meio cultural que dá a ele grande autonomia. Como ele maneja um orçamento pequeno, comparado com o resto, provavelmente não vai levar puxão de orelha. Os outros ministros correm o risco de terem a orelha puxada o tempo todo. O que torna difícil para eles irem a público. Vão defender o quê? De repente, muda tudo. Defendem o governo e recebem uma correção de cima.

Ao mesmo tempo, o PMDB parece estar cada vez mais forte, independente, até mesmo chantageando. O vice-presidente Michel Temer já avisou que não tem controle sobre o partido.

São várias coisas. Se Dilma conversasse com Temer e Lula, ela certamente teria mais apoio. A sensação é que a presidente se isolou muito, que ela não conversa com gente de peso. Temer tem peso institucional. O ex-presidente Lula tem a força carismática, a popularidade, inclusive no meio empresarial. Por outro lado, o PMDB conta hoje com os três sucessores constitucionais à Presidência da República: o vice-presidente, o presidente da Câmara dos Deputados e o presidente do Senado Federal. Não se esperava isso. Então, o PMDB está adquirindo força só pelo vazio que o PT está deixando na política. O PT desocupou o espaço que tinha. Não desocupou com Dilma porque ela não gosta de política. O PT começou a esvaziar com Lula.

Quando?

No começo de 2003. Uma das primeiras medidas que Lula fez votar foi a Reforma da Previdência, que nunca foi do programa do PT. Isso levou à saída dos que depois formaram o PSOL. Começou um processo em que o PT parou de ter um discurso, em que o presidente do PT é uma pessoa que fica em segundo, terceiro plano. É mais importante ser ministro de uma pasta secundária do que presidir o PT, ou ser líder do governo no Senado ou na Câmara. Quer dizer, os cargos essencialmente políticos foram sendo esvaziados em favor do ministério.

O que o partido defendia não era compatível com o que é possível fazer no Executivo?

Esse é um dos lados da questão. Mas poderia, ainda assim, explicar o processo, dizendo, por exemplo, que elegeu menos de 20% da Câmara e não pode governar sozinho. Há um discurso óbvio: o governo Lula foi fantástico do ponto de vista da inclusão social. Isso não teria sido possível em uma política de enfrentamento. Se os meus amigos intelectuais tivessem conseguido botar para fora o Henrique Meireles (presidente do Banco Central), Lula não teria durado. O governo dele teria sido uma calamidade. Tudo o que PT fez no governo foi porque Lula amarrou os acordos. Minha questão é que não houve um trabalho político em cima desses acordos. E o ponto político essencial, na verdade, é ético. O PT era o grande partido ético brasileiro. Hoje, o PT conseguiu a fama de ser um partido antiético.

Na verdade, a fama é de ser um partido corrupto.

O PT teria de perceber que toda a inclusão social foi transformada em um grande projeto de consumo. Não se tornou um projeto ético. No século 19, o grande flagelo ético do Brasil era a escravatura. Hoje, o grande flagelo ético é a miséria. Não estou falando nem da pobreza. Um país com milhões de miseráveis é uma droga. Se o PT batesse nessa tecla o tempo todo e dissesse que está combatendo o problema, ele teria uma imagem ética que poderia sobrepor à discussão de corrupção.

O PT bate nessa tecla.

Não do ponto de vista ético. Ele bate nessa tecla do ponto de vista do consumo. Diz que melhorou o consumo das pessoas. A oposição, no discurso dela contra a corrupção, jamais levanta a questão da miséria. Não estou dizendo que a oposição quer a miséria. Mas em nenhum discurso dos líderes da oposição se vê a miséria como uma chaga ética. Para eles, a chaga ética é o desvio de dinheiro. Não parecem estar se ofendendo com a miséria. Esse era um ponto em que o PT poderia bater, mas não faz isso. Ele deixou todo o campo da discussão ética em mãos da oposição.

O PT não perdeu o discurso da ética depois de 2005, do Mensalão? O senhor fala em 2003.

Talvez você tenha razão. Falo em 2003 porque, em primeiro lugar, o PT não deu satisfação nenhuma da mudança de programa, da priorização da Reforma da Previdência. Segundo, o partido tornou-se figurante no projeto lulista. Em 2003, Lula está tomando assento, não dá tempo de fazer uma grande discussão popular. Em 2004 e 2005, tem o Mensalão e ele reage aumentando os programas sociais. Em seguida, vem a cornucópia de votos, o segundo mandato e toda a popularidade que Lula granjeou com os programas sociais. Deste ponto de vista, há uma época áurea, não só para o PT, mas para o Brasil.

Até no protagonismo internacional.

Tudo. Faltou estruturar isso em uma sustentação popular que fosse além do bolso. Acabou ficando muito o bolso. Até porque não dá para cobrar de um partido o que ele não poderia fazer. Fazer o enfrentamento do capital teria sido muito difícil. Agora, o que não deixa de ser meio triste é que houve 12 anos de governo do PT, sem enfrentar jamais o capital.

Sem ao menos negociar.

Negociar, negociou. Nunca houve um enfrentamento de choque. No entanto, esse setor empresarial está muito descontente. Pelo que ouvi dos empresários, o descontentamento inicialmente não era com o PT. Era com Dilma. Tanto que um ano atrás, os empresários poderosos queriam Lula. Não queriam outro. Em 2010, eles queriam Lula. Não sendo Lula, eles preferiam Serra a Dilma porque conheciam Serra. No ano passado, eles preferiam Lula a Dilma. E preferiam Lula a Aécio. Quando Lula não entrou na campanha, eles foram para o outro lado. E Dilma conseguiu, não sei de que maneira, torrar o patrimônio que ela amealhou no segundo turno.

Com um Executivo ausente e um Legislativo que só defende causa própria, o Judiciário está ocupando um espaço desproporcional?

Sim. O Judiciário, as profissões correlatas, a Procuradoria Geral da República, tudo. Há um processo pelo qual muito está sendo decidido por eles. É preocupante porque, em um Estado Democrático, eles devem ter um papel subsidiário. Não essencial. Um exemplo: a Constituição de 1988 é programática. Se um governo decidisse não promover o aumento real do salário mínimo todo ano, poderia ser questionado. É um aspecto que a Constituição propicia. Agora, o Judiciário está indo para questões muito específicas. Ele se beneficia do fato de ser atualmente o poder em última instância. É o que declara tudo.

Até permitiu que um juiz saísse com o Porsche de um réu.

Isso já é uma deformação grande. Há juízes que estão barbarizando. Um prendeu os funcionários da companhia aérea em Imperatriz quando estava atrasado para o embarque, o outro tripudiou a agente de trânsito no Rio de Janeiro. Ele teve o endosso do Tribunal de Justiça do Rio, o que é muito grave. Para a opinião pública, o Tribunal de Justiça proclamou que os juízes são deuses. Há duas profissões com péssima mídia. Juízes e médicos. São as duas profissões que estão com imagem junto à sociedade de gananciosas, de interesseiras, de egoístas, de pouca preocupação com o bem comum. Claro que a maior parte não é assim.

Por que os médicos? Por causa da reação de parte deles quanto ao programa Mais Médicos?

Coincide, mas a questão mesmo são os casos de abuso. Um relato recente foi o de Néli Pereira, jornalista da BandNews FM, que foi a um médico de convênio, em um bom hospital de São Paulo. O médico disse que não iria atendê-la, que não dava para fazer uma consulta boa pelo convênio, que pagava a ele R$ 40 reais. Falou para ela ir no amigo dele, que cobra R$ 700. E aproveitou para pedir para participar do programa dela. Um absurdo. Como um médico dá um malho de 700 paus e ainda acha que a pessoa vai promovê-lo no programa dela? É ser muito sem noção. Esse é um aspecto que está batendo na sociedade brasileira. Há pessoas que não se dão conta do que fazem. Acham normal agir de uma forma antissocial.

Às vezes, soltam a porta em cima da pessoa que está passando. Falta um comportamento ético?

É ético, mas se pode dizer que está faltando o mínimo de boas maneiras, de educação, de percepção do outro. A capacidade de se colocar no lugar do outro sumiu. Esse é um traço que está acontecendo. Quando se tem uma sociedade que só se orienta em direção ao consumo, é difícil estabelecer outra coisa. E acho que o mérito e o fracasso da inclusão social do governo Lula é ter sido basicamente pelo consumo. Por que é um mérito, uma vantagem? Porque pelo consumo se deu bem com o empresariado, com a produção. Quando se inclui pelo consumo, as pessoas compram mais geladeira, mais carne, mais ovo…

E também ficam mais felizes. Em um primeiro momento, elas não tinham geladeira e queriam ter. Faltou um segundo momento?

Acho que deveria ter sido simultâneo. Deveria ter insistido o tempo todo no tema que Dilma adotou – País rico é país sem pobreza. Se fosse usado pra valer, desde o começo do governo Lula, esse tema é um projeto de País. Não é um projeto de bolso. E você teria resultados. Um problema que os tucanos apontam muito, com razão, é o despreparo da mão de obra. Os programas sociais são bons, mas muitas pessoas entraram em uma zona de conforto, em vez de se prepararem para serem melhores trabalhadores.

Qual a saída?

Associar os programas sociais fortemente com educação, com treinamento da mão de obra. Claro que tem o Pronatec, tem programas bons, mas é preciso expandi-los.

O PSDB falou na campanha. Qual teria de ser o papel da oposição hoje?

O PSDB tem um espaço para abraçar a agenda do empreendedorismo. O PSDB está mais para ser um partido do grande capital do que do empreendedor. Não é social-democrata, mas tem um foco mais liberal. O grande espaço deles seria: “Vamos ser liberais”. O ideal seria uma meta do tipo ter dez milhões de empreendedores em quatro anos. O avanço para a economia seria significativo e o partido conseguiria uma base extremamente forte.

Mas como o PSDB está agindo hoje?

Sabe o caminho das rosas e o caminho dos espinhos? O PSDB está procurando o caminho das rosas, que é o mais fácil. E o caminho mais fácil é o quê? Há toda uma crônica policial que os favorece, assim como uma mídia que é simpática a eles e detesta o PT. Isso leva o PSDB a ter um projeto mais policial do que político. Eles estão vendendo para si próprios a ideia de que quase venceram a eleição. E isso os está cegando e os tornando incapazes de fazer uma crítica do que poderiam ter feito e de como atuar hoje. Hoje, está claro o seguinte: como o governo da Dilma foi uma decepção do ponto de vista econômico, então, a política que ela está adotando agora é tucana. Com ressalvas, mas é parecida com a dos tucanos.

Como Lula no primeiro mandato?

Com a diferença de que Lula recebeu uma herança difícil e Dilma pega sua própria herança. Como o Richa. O PSDB poderia ter muitas propostas, ser mais transparente. Um problema sério das campanhas foi o ocultamento de dados fundamentais. No fim das contas, o PSDB concordou com o Bolsa Família. Mas esse programa não é o grande motor das mudanças sociais. O grande motor é o aumento real do salário mínimo. E isso o PSDB iria reduzir, com o argumento bom de que a economia brasileira não comporta elevar o mínimo em termos reais. O PSDB poderia ter entrado nessa discussão depois das eleições.

O PSDB está muito raivoso.

Sim. Porque acha que, se sacudir um pouco a árvore, tudo cai no colo dele.

Há alguma semelhança entre o atual momento e a República do Galeão?

Não chega a ter. O projeto golpista contra o getulismo contou como atores principais a UDN, o empresariado urbano e rural, o governo dos Estados Unidos e os militares. Hoje, os militares não querem o poder. E os setores de direita querem muito pouca interferência estatal. E chamar os militares para não fazer nenhum tipo de intervenção estatal me parece contraditório. Então, os militares estão fora. O governo dos Estados Unidos talvez veja com simpatia a queda de Maduro (Nicolás Maduro, da Venezuela) ou uma derrota do grupo de Cristina (Cristina Kirchner, da Argentina) nas eleições. O Brasil é muito grande para o governo americano se meter em uma aventura. E nem representa nenhuma ameaça a eles. O máximo que aconteceu foi que, em um episódio, a Dilma fechou a cara para eles.

E o empresariado?

Eu me pergunto qual seria a lógica de trocar Joaquim Levy por uma convulsão social. Ele já responde a uma parte substancial das demandas do mercado. Ele talvez seja o único ministro indemissível desse governo. Não apenas porque ele é forte. Se ele se demitir, todos saberão que Dilma não apoiou seu projeto de recomposição da economia. Se eu sou empresário, eu prefiro o Levy a Armínio Fraga, se o preço de o Armínio entrar for um processo complicado deimpeachment, com manifestações na rua, com contramanifestações, greves. Se o governo for mais à direita pelo fruto de um processo não democrático, como aconteceu no Paraguai e em Honduras, haverá fortes riscos de a sociedade entrar em uma crise séria. Isso não é bom para os empresários.

Quem quer o impeachment?

Não vejo vontade de tirar a Dilma do governo, a não ser do próprio PSDB e talvez de setores da mídia. A carta-testamento de Getúlio tem uma parte muito triste afirmando que o povo nunca mais será escravo. Foi. Houve mais 20 anos de ditadura. Hoje, temos uma classe dos mais pobres com muito mais autonomia. O pobre de algumas décadas atrás era mais humilde. Hoje, é muito mais afirmativo.

Qual é sua posição em relação à regulação da mídia?

O que a esquerda tinha de fazer é constituir órgãos de mídia. Nestes 12 anos de governo do PT, não fomos além de uma proliferação de blogs, que alguns chamam de sujos. Alguns são bons; outros são péssimos. Mesmo os melhores não cobrem o que o jornal cobre.

O que a presidenta Dilma pode fazer para afastar a ideia de impeachment?

Dilma deveria fazer política, no sentido de reconquistar o eleitorado. Enquanto a oposição faz coisa de polícia, e não de política, o governo não está fazendo nenhuma das duas coisas. Por que Dilma foi escolhida? Eu sempre tive a convicção de que Patrus Ananias teria muito mais o perfil (para a Presidência), por ser alguém que teve sucesso nas políticas sociais, que já tinha exercido cargos de chefia, ter uma origem no PT mais antiga e circular bem politicamente. Provavelmente, Lula a escolheu porque achou que dos nomes possíveis do PT era a mais próxima do empresariado. Eu pensava que ela iria fazer uma política mais de direita, mais próxima dos empresários.

Por quê?

Dilma não parece ter muita simpatia por um elenco de temas de esquerda. Ela nem tem familiaridade com os termos. Tempos atrás, ela falou sobre opção sexual e não orientação sexual. Um presidente da República que vai falar tem de ser brifado. Nenhum presidente ou chefe tem de saber tudo. Ele tem de saber menos do que cada um de seus ministros. Mas ele tem de fazer política.

Para isso, ele tem de ouvir.

Dizem que ela intervém demais nos ministérios, que não tem muita confiança (nos ministros). Tivemos uma eleição mais alicerçada nos defeitos de um candidato do que nas qualidades do outro. Não foi uma eleição em busca do melhor. E estamos com um problema grande hoje porque não vemos uma saída. Não vejo um horizonte de melhora na disputa política. Mas vamos pensar no que é melhor para o Brasil e não para o PT.

O que é melhor?

Que Dilma termine o mandato em condições razoáveis. Qualquer outra coisa seria dramático. Se Dilma acabar renunciando, ou pior ainda, se sofrer um impeachment, este País vai ficar em um conflito muito grande. Não adianta Temer fazer um governo melhor, porque a temperatura estará aquecida. Mas vamos pensar em 2018. O PT pensa no Lula e o PSDB, pelo visto, vai de Aécio, Serra ou Alckmin. Do quarteto que toma decisões, o único que não deve concorrer é o Fernando Henrique. Beto Richa, que poderia entrar no clube depois de o PSDB ter perdido em Minas, está sob um tiroteio muito forte.

Há risco real de impeachment?

Não temos prévias disso. A única prévia é o governo Collor. Ele foi eleito, assumiu o cargo legitimamente, e acabou ejetado por uma agenda policial. Mas Collor não tinha nenhum apoio de partido ou movimentos e fracassou redondamente. Hoje, há a busca de um pretexto para tirar a Dilma. E ninguém tem argumento policial forte. Estão procurando.

E se encontrarem?

Se encontrarem algum sinal de que ela tampou a corrupção na Petrobras, vai ser feio, muito feio. Mesmo que ela tenha feito isso a contragosto. Mas o problema não é esse. O problema é o descontentamento de uma parte da sociedade. Quem votou nela está meio estupefato, pelo caminho que Dilma tomou e não se sabe se esta medicina mais neoliberal vai funcionar ou não. Outro ponto importante é que parte do PT tem posições conservadoras. Em junho de 2013, o partido condenou os protestos. Em outras condições, o PT nadaria de braçada. É a ideia de Sartre: há sempre razões para se revoltar. A revolta é legítima. Outra coisa: o PT virou o partido que diz em público compreender a corrupção. Isso é muito ruim. Os protestos contra as condições de encarceramento dos empresários saíram mais de pessoas ligadas ao PT do que de partidos de direita.

Tem chance de uma força política nova emergir no Brasil, como ocorreu na Grécia, com o Syriza?

Seria bom demais, mas acho muito difícil. É difícil porque o que se colocou à esquerda do PT, o PSOL, tem falhas sérias de projeto, de programa. Tirando Jean Wyllys e outros poucos, o pessoal não tem faróis muito altos. O nosso sistema tem uma coisa muito boa: o período de campanha eleitoral, sobretudo para presidente, ele destroça quem não tem consistência. Dilma levou três anos de cacete. Aécio levou um ano de porrada. Marina não aguentou dois meses. O fato de se ter um projeto mais ou menos consistente conta. Hoje, não visualizo isso em ninguém. O PT e o PSDB são fracos nesse ponto. Apesar de todas as críticas ao PT, acho o PSDB pior do que o PT, mas eu não gostaria de continuar votando no mal menor.

Link curto para a entrevista: http://brasileiros.com.br/950Xw

ONU: 121 milhões de crianças e adolescentes estão fora da escola

Um relatório lançado hoje (19/1) em Londres mostra que 121 milhões de crianças e adolescentes, de 6 a 15 anos, no mundo inteiro, desistiram de frequentar a escola ou sequer começaram a fazê-lo. O documento foi feito pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e contrasta com a promessa da comunidade internacional de alcançar a Educação para Todos até 2015.

O relatório, intitulado Reparação da promessa quebrada de Educação para Todos: resultados da Iniciativa Global Crianças Fora da Escola, mostra que houve pouco progresso na melhora desse cenário desde 2007. Além disso, o documento revela que 63 milhões de adolescentes com idade entre 12 e 15 anos não estão na escola. O número mostra que há muito mais adolescentes nessa situação do que crianças. Enquanto uma em cada 11 crianças em idade escolar de nível primário não frequenta a escola, um em cada cinco adolescentes está na mesma situação.

De acordo com a  diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, os métodos tradicionais de ampliar o acesso à educação, baseados em mais professores, mais livros didáticos e mais salas de aula, não é mais eficaz. Na opinião de Irina, os métodos têm que considerar formas de incluir crianças menos favorecidas.

“Precisamos de intervenções específicas para alcançar as famílias deslocadas devido a conflitos, as meninas que são forçadas a ficar em casa, as crianças com deficiência e as milhares que são obrigadas a trabalhar. Porém, essas políticas têm um custo. Esse relatório serve de alerta para mobilizar os recursos necessários para garantir a educação básica para cada criança, de uma vez por todas.”

O relatório mostra também que as mais afetadas pela falta de acesso à educação são as crianças que vivem em áreas de conflito, as que trabalham e as que enfrentam discriminação baseada em etnia, gênero ou deficiência. A pobreza, contudo, é o maior vilão da educação, diz o estudo. Na Nigéria, por exemplo, dois terços das crianças em áreas mais pobres não vão à escola. E 90% delas provavelmente nunca o farão. Os índices mais elevados de crianças fora da escola são encontrados na Eritreia e na Libéria, onde 66% e 59% das crianças, respectivamente, não frequentam a escola primária.

O diretor executivo do Unicef, Anthony Lake, enumera três prioridades de investimento em três áreas. A primeira é aumentar o número de crianças frequentando a escola primária; a segunda, ajudar mais crianças, principalmente as meninas, a permanecer na escola durante todo o nível secundário; e a terceira, melhorar a qualidade da aprendizagem.

“Não deve haver discussão a respeito dessas prioridades: precisamos realizar as três, porque o sucesso de cada criança – e o impacto do nosso investimento em educação – depende de todas elas”, disse Lake. Os dados da pesquisa podem ser consultados no site da Unesco, de forma interativa (site em inglês).

Com informações da Agência Brasil.

Avaliação: França debate a abolição das notas nas escolas

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França debate a abolição das notas nas escolas.

As notas estão com os dias contados nas escolas francesas. O Conselho Superior dos Programas, órgão do Ministério da Educação francês, elaborou uma proposta para abolir o sistema de avaliação através das notas, que na França vão de zero até 20, e substituí-las por uma análise mais geral das competências dos alunos. O projeto será discutido em uma conferência nacional nesta quinta e sexta-feira (11 e 12), em Paris.

Se o projeto for aprovado, caberá ao professor avaliar as capacidades de cada estudante através de conceitos e pareceres individuais. O docente utilizará critérios como o domínio da língua francesa, a capacidade de comunicação, formas e métodos de aprendizado, a postura dos estudantes como cidadãos, sua compreensão e observação do mundo, entre outros.

O objetivo, segundo o Conselho Superior dos Programas, é diminuir as desigualdades, a concorrência, a pressão e estimular os alunos a evoluir nas áreas onde encontram dificuldades. O próprio presidente francês, François Hollande, chegou a classificar o sistema de notas das escolas nacionais como “um castigo” e não como uma forma de avaliar a capacidade dos estudantes.

Para a presidente do Conselho de Avaliação do Sistema Escolar, Nathalie Mons, o sistema atual de avaliação não é justo. “Em algumas escolas, tirar uma nota 12, que está muito próxima da média, não é um bom resultado. Já em estabelecimentos mais exigentes, obter um 12 pode ser considerado ótimo. Ou seja, percebemos que ainda há muita desigualdade nas instituições de ensino”, considera.

  • França debate a abolição das notas nas escolas – Ouvir (07:01)

Atraso nas reformas
Sistemas similares sem as tradicionais notas já vêm sendo utilizados há muitos anos por países europeus onde a educação é considerada de alto nível, como Suécia, Dinamarca e Alemanha. Na França, se for aprovado, o novo sistema pode começar a ser testado em 2015.

Para Denis Adam, secretário nacional do setor de educação da União dos Sindicatos Autônomos franceses (Unsa) ainda há muita resistência para implementar reformas nas escolas francesas. “Temos um discurso paradoxal sobre isso. Os pais esperam que seus filhos sejam avaliados como quando eles eram estudantes, com a consciência do trauma que isso gerou neles quando recebiam notas ruins”, diz.

Nathalie Mons lembra que não é só a França que é inflexível a mudanças na educação. “Em todos os países que mudaram seu sistema de avaliação foi extremamente complicado realizar um debate na sociedade civil”, ressalta.

O motivo, segundo ela, é que para os pais, a vantagem das notas é que elas mostram objetivamente o desempenho de seus filhos. “Ou seja, se os resultados estão acima de 10, eles estão tranquilos, mas, se as notas estão abaixo da média, há algo de errado. Mas essa clareza é falsa”, garante.

Falta de esclarecimentos
O engenheiro português Pedro David é pai de dois meninos que estudam em escolas francesas. Ele reclama da falta de esclarecimentos sobre o funcionamento do sistema que pretende abolir as notas. “Ainda não entendi muito bem como eles querem aplicar essa reforma. Se for feita uma correspondência exata entre duas escalas de avaliação, não vai servir para nada. Além disso, não acredito que a sociedade francesa vá se adaptar facilmente a esse novo sistema”, confessa.

Nathalie Mons compreende a dificuldade dos pais em relação às mudanças. Para ela, é necessário que a comunicação sobre essas reformas na educação também seja aprimorada. “Se aplicarmos outros tipos de avaliação, é preciso que eles sejam facilmente interpretados pelas famílias. E que algo mais seja feito em termos de informação aos pais sobre a aprendizagem de seus filhos”, estima.

Com informações da RFI.

Nunca é tarde para aprender; Nunca é cedo demais para ensinar…

“A construção de uma epistemologia capaz de dar conta de uma objectividade subjectiva (…), rompe com esta unidimensionalidade intersubjectiva metodológica para adoptar perspectivas multirreferenciais, visando integrar a produção dos factos e dos acontecimentos nas suas respectivas condições de significação. Ou seja, por outras palavras, porque a realidade social se complexifica, complexificam-se os processos e os instrumentos teóricos e metodológicos através dos quais se procura compreender essa complexividade que aqui exprimimos sinteticamente pelo conceito de objectividade intersubjectiva”.
[Matos, Manuel S. (1999). Teorias e práticas da formação: Contributos para a reabilitação do trabalho pedagógico. Porto: Asa Editores, 1999, p. 53]

“Prouni foi determinante para que eu fizesse o curso superior”, afirma ex-bolsista negra

A quantidade de negros no Programa Universidade para Todos (‪#‎Prouni‬) aumentou 353% nos últimos dez anos, passou de 35.568, em 2005 (primeiro ano de execução do programa), para 125.566 (2014). No começo, apenas 37% dos beneficiados eram negros. Hoje, são 56,48%. Joceline Gomes, 26 anos, é aluna da primeira turma do programa. Para ela, sua vida mudou ao conquistar uma bolsa integral. Assista ao vídeo. goo.gl/Lu8hGu

Segundo dados do Ministério da Educação, dentre os estudantes contemplados em 2014 pelo Programa Universidade para Todos (Prouni), mais da metade são negros. No primeiro ano do programa, 2005, apenas 37,2% dos estudantes eram negros. Hoje, são 56,48%. Em números absolutos, a quantidade de alunos negros passou de 35.568, há 10 anos, para 125.566 atualmente, um aumento de 353%.

Joceline Gomes, 26 anos, é aluna da primeira turma do programa, em 2005. Para ela, sua vida mudou ao conquistar uma bolsa integral no curso de Jornalismo da Universidade Católica de Brasília (DF). “Minha família era de classe média baixa, a gente não tinha acesso a nada. Quando entrei na universidade e vi que eu realmente podia estar lá, que aquela vaga realmente era minha, que eu tinha uma bolsa integral que ia me permitir cursar uma faculdade, foi a oportunidade da minha vida. Isso me transformou no que sou hoje. O programa foi determinante para que eu fizesse o curso superior”, afirma a jovem negra, moradora de Taguatinga, região administrativa do Distrito Federal.

A ex-bolsista se formou em 2008 e hoje trabalha na sua área de formação. Segundo levantamento da Seppir, 85% dos alunos formados pelo programa possuem emprego, sendo que 65% trabalham com carteira assinada. A maioria desses estudantes trabalha na área em que se formaram. Para a jovem, a melhoria de vida não veio somente para ela. “Eu fui a primeira a entrar na faculdade de toda a minha família. Isso já vai encorajando outras pessoas da família. Então você vai puxando toda uma geração de pessoas e vai influenciando. Primeiro dentro da sua família, depois com seus amigos, e vai aumentando esse círculo”, assegura.

Com informações do Palácio do Planalto.

Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor) com inscrições abertas

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As secretarias estaduais e municipais de educação e os institutos federais de educação, ciência e tecnologia das cinco regiões do País têm prazo até 21 de novembro para informar na Plataforma Freire quantos professores das suas redes precisam cursar uma licenciatura ou pedagogia.

É com base nessa informação que a Fundação Capes, em parceria com as universidades e os fóruns de educação, define as vagas do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor) para 2015. A inscrição dos professores será de 20 de janeiro a 13 de março do próximo ano.

O plano de formação, lançado em 2009, abre turmas especiais em cursos de licenciatura e programas de segunda licenciatura, na modalidade presencial, exclusivas para educadores das redes públicas que não possuem formação superior na área onde atuam, conforme exigência da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).

Essas turmas são abertas mediante a convergência de três fatores: as secretarias estaduais, municipais e do Distrito Federal e os institutos federais informam o número de vagas de que suas redes precisam.

Já as instituições de ensino superior, que participam do Parfor, definem e informam a oferta de cursos e de vagas, e os educadores fazem a pré-inscrição na licenciatura que pretendem cursar. Todo o processo é realizado na Plataforma Freire.

Critérios
Para ocupar as vagas da primeira licenciatura, o professor precisa atender requisitos descritos no Parfor: estar vinculado a uma rede pública estadual, municipal ou do Distrito Federal; no exercício da atividade do magistério; e não ter curso de licenciatura. A carga horária mínima é de 2.800 horas, das quais 400 horas de estágio supervisionado. A duração do curso é de quatro anos.

Já o educador com graduação em área diferente daquela em que leciona precisa estar há pelo menos três anos na rede pública para fazer a segunda licenciatura. Esse curso tem carga horária de 800 horas a 1.400 horas e duração entre dois anos e dois anos e meio.

Acesso
O Parfor também oferece formação pedagógica para docentes graduados ou licenciados das redes públicas. Essa formação complementar é de 540 horas, ministradas durante um ano.

Os cursos são gratuitos para todos os professores, mas a Capes repassa recursos financeiros para as instituições de ensino superior responsáveis pela formação, supervisão de estágios e certificação dos concluintes.

É tarefa das secretarias de educação oferecer aos cursistas material escolar, transporte, hospedagem e alimentação durante o curso.

Indicadores
De maio de 2009, quando foi criado, a dezembro de 2012, o Parfor colocou em salas de aula 54,8 mil professores em turmas especiais, segundo balanço publicado pela Capes. No período, foram implantadas 1.920 turmas em 397 municípios.

Professores das regiões Norte e Nordeste foram os que mais procuraram formação. Até 2012, o Parfor atendeu 28.073 educadores da região Norte e 20.781 do Nordeste. Na sequência, aparecem a região Sul (3.422 professores), o Sudeste (1.847) e o Centro-Oeste (753).

Sobre o Parfor
O Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica integra um conjunto de políticas públicas do governo federal em parceria com estados, municípios e instituições de ensino superior para transformar o magistério.

Estão neste grupo de políticas o Piso Nacional do Magistério, instituído em julho de 2008; os cursos de mestrado profissional para educadores das redes públicas; e o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid), que visa o aperfeiçoamento e a valorização da formação de professores.

Além do Programa de Consolidação das Licenciaturas (Prodocência), que fomenta a inovação, a elevação da qualidade dos cursos do magistério e a valorização da carreira do professor.

Fonte:
Ministério da Educação 

“A educação não pode ignorar a curiosidade das crianças”, diz Edgar Morin

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O antropólogo, sociólogo e filósofo Edgar Morin fará uma das quatro conferências magnas do encontro internacional Educação 360, promovido por O GLOBO e “Extra” em parceria com Sesc e da Prefeitura do Rio, com apoio do Canal Futura. O evento acontece dias 5 e 6 de setembro, na Escola Sesc do Ensino Médio, em Jacarepaguá. Nesta entrevista, Morin critica o modelo ocidental de ensino e diz que o professor tem uma missão social, por isso, segundo ele, “é preciso educar os educadores”.

Na sua opinião, como seria o modelo ideal de educação?
A figura do professor é determinante para a consolidação de um modelo “ideal” de educação. Através da Internet, os alunos podem ter acesso a todo o tipo de conhecimento sem a presença de um professor. Então eu pergunto, o que faz necessária a presença de um professor? Ele deve ser o regente da orquestra, observar o fluxo desses conhecimentos e elucidar as dúvidas dos alunos. Por exemplo, quando um professor passa uma lição a um aluno, que vai buscar uma resposta na Internet, ele deve posteriormente corrigir os erros cometidos, criticar o conteúdo pesquisado. É preciso desenvolver o senso crítico dos alunos. O papel do professor precisa passar por uma transformação, já que a criança não aprende apenas com os amigos, a família, a escola. Outro ponto importante: é necessário criar meios de transmissão do conhecimento a serviço da curiosidade dos alunos. O modelo de educação, sobretudo, não pode ignorar a curiosidade das crianças.

Quais são os maiores problemas do modelo de ensino atual?
O modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o que é um reducionismo. O conhecimento complexo evita o erro, que é cometido, por exemplo, quando um aluno escolhe mal a sua carreira. Por isso eu digo que a educação precisa fornecer subsídios ao ser humano, que precisa lutar contra o erro e a ilusão.

O senhor pode explicar melhor esse conceito de conhecimento?
Vamos pensar em um conhecimento mais simples, a nossa percepção visual. Eu vejo as pessoas que estão comigo, essa visão é uma percepção da realidade, que é uma tradução de todos os estímulos que chegam à nossa retina. Por que essa visão é uma fotografia? As pessoas que estão longe, são pequenas, e vice-versa. E essa visão é reconstruída de forma a reconhecermos essa alteração da realidade, já que todas as pessoas apresentam um tamanho similar. Todo conhecimento é uma tradução, que é seguido de uma reconstrução, e ambos os processos oferecem o risco do erro. Existe um outro ponto vital que não é abordado pelo ensino: a compreensão humana. O grande problema da Humanidade é que todos nós somos idênticos e diferentes, e precisamos lidar com essas duas ideias que não são compatíveis. A crise no ensino surge por conta da ausência dessas matérias que são importantes ao viver. Ensinamos apenas o aluno a ser um indivíduo adaptado à sociedade, mas ele também precisa se adaptar aos fatos e a si mesmo.

O que é a transdisciplinaridade, que defende a unidade do conhecimento?
As disciplinas fechadas impedem a compreensão dos problemas do mundo. A transdisciplinaridade, na minha opinião, é o que possibilita, através das disciplinas, a transmissão de uma visão de mundo mais complexa. O meu livro “O homem e a morte” é tipicamente transdisciplinar, pois busco entender as diferentes reações humanas diante da morte através dos conhecimentos da pré-história, da psicologia, da religião. Eu precisei fazer uma viagem por todas as doenças sociais e humanas, e recorri aos saberes de áreas do conhecimento, como psicanálise e biologia.

Como a associação entre a razão e a afetividade pode ser aplicada no sistema educacional?
É preciso estabelecer um jogo dialético entre razão e emoção. Descobriu-se que a razão pura não existe. Um matemático precisa ter paixão pela matemática. Não podemos abandonar a razão, o sentimento deve ser submetido a um controle racional. O economista, muitas das vezes, só trabalha através do cálculo, que é um complemento cego ao sentimento humano. Ao não levar em consideração as emoções dos seres humanos, um economista opera apenas cálculos cegos. Essa postura explica em boa parte a crise econômica que a Europa está vivendo atualmente.

A literatura e as artes deveriam ocupar mais espaço no currículo das escolas? Por quê?
Para se conhecer o ser humano, é preciso estudar áreas do conhecimento como as ciências sociais, a biologia, a psicologia. Mas a literatura e as artes também são um meio de conhecimento. Os romances retratam o indivíduo na sociedade, seja por meio de Balzac ou Dostoiévski, e transmitem conhecimentos sobre sentimentos, paixões e contradições humanas. A poesia é também importante, nos ajuda a reconhecer e a viver a qualidade poética da vida. As grandes obras de arte, como a música de Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento vital, que é a emoção estética, que nos possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a harmonia. Literatura e artes não podem ser tratadas no currículo escolar como conhecimento secundário.

Qual a sua opinião sobre o sistema brasileiro de ensino?
O Brasil é um país extremamente aberto a minhas ideias pedagógicas. Mas a revolução do seu sistema educacional vai passar pela reforma na formação dos seus educadores. É preciso educar os educadores. Os professores precisam sair de suas disciplinas para dialogar com outros campos de conhecimento. E essa evolução ainda não aconteceu. O professor possui uma missão social, e tanto a opinião pública como o cidadão precisam ter a consciência dessa missão.

Com informações de O Globo.