Juremir Machado: “Ser ou não ser Charlie, eis a questão”

A man holds a placard which reads "I am Charlie" to pay tribute during a gathering at the Place de la Republique in Paris

* Juremir Machado

Tem quem se sinta orgulhoso de ser Charlie e quem se sinta envergonhado.

Parte da esquerda brasileira acha que a culpa é do Ocidente mesmo. Por extensão, das vítimas.

Os iluministas, com Voltaire à frente, lutaram contra a intolerância religiosa e pelo direito de blasfemar (outro nome para criticar). A tolerância ganhou o primeiro tempo do jogo. Aí veio uma nova forma de intolerância: a incapacidade de aceitar a diferença. Depois das era da intolerância e da tolerância, precisamos entrar na era do respeito.

O problema é, em nome do respeito ao diferente, tornar-se refém de intolerantes.

O filósofo marxista Slavoj Zizek botou os pingos nos is: a culpa pelos atentados de Paris é dos que os cometeram. Não tem mais nem menos. Ah, mas os muçulmanos são discriminados! Zizek não vai nessa conversa: “Muçulmanos são de fato uma minoria explorada e escassamente tolerada (OK, mas negros afrodescendentes são tudo isso e mais e no entanto não praticam atentados a bomba ou chacinas)”. Daí a conclusão de Zizek, autor pop das esquerdas hipermodernas: “Quanto mais os esquerdistas liberais ocidentais mergulham em seu sentimento de culpa, mais são acusados por fundamentalistas muçulmanos de serem hipócritas tentando ocultar seu ódio ao Islã. Esta constelação perfeitamente reproduz o paradoxo do superego: quanto mais você obedece o que o outro exige de você, mais culpa sentirá”. E mais o outro ditará as regras que o obrigarão a ser como ele impõe.

zizek

Em outras palavras, o Ocidente não pode cair nessa cilada ardilosa.

Zizek é cheio de sutilezas retóricas: “O problema com fundamentalistas não é que consideramos eles inferiores a nós, mas sim que eles próprios secretamente se consideram inferiores. É por isso que nossas reafirmações politicamente corretas condescendentes de que não sentimos superioridade alguma perante a eles só os fazem mais furiosos, alimentando seu ressentimento”. Em linguagem de gente: eles querem aparecer, impor seus dogmas e transformar nossos pontos fortes – a pluralidade, a democracia, o relativismo – em debilidades. Surgem, contudo, contradições. Os defensores do politicamente incorreto, situados, em geral, à direita, não perdem a coerência: todo humor é possível, contra negros, gays, religiões e o que vier. Os defensores do politicamente correto obrigam-se a dizer o contrário: tudo o que ofende e humilha é inaceitável. Cisão na esquerda. Ruptura nas forças “progressistas”?

Vale lembrar que Charlie Hebdo é jornal de esquerdistas.

Um terceiro time tenta o caminho do meio. Rejeita humor com discriminação racial e sexual, mas não vê problemas em caricaturas de Maomé e de outros ícones religiosos. Racismo e homofobia, não. Blasfêmia, sim. Filosoficamente falando, qual a diferença? Dominação e ideologia. No Brasil, racismo é crime. Homofobia e blasfêmia, não. Curiosamente há muito humor racista e homofóbico e pouca blasfêmia. Os jornais americanos evitaram reproduzir as charges de Charlie Hebdo. Na Austrália, não se pode publicar aquilo que tem teor discriminatório.

Quem vai ditar as regras: Charlie, Alcaida ou o bom senso relativista?

Um pouco de luz: a liberdade de culto precisa aprender a conviver com a de crítica.

A esquerda multiculturalista não pode ser iluminista?

O multiculturalismo é uma solução razoável: cada um respeita o outro e ninguém zomba de ninguém.

O que fazer com os racionalistas iluministas que desejam combater todas as religiões?

Para um neoiluminista, inimigo do multiculturalismo, a intolerância foi expulsa pela porta da frente e voltou pela janela: a sua nova forma de legitimação seria o respeito a todas as diferenças, mesmo às que não respeitam diferenças e querem se afirmar como verdade absoluta, revelada e dogmática com interferência sobre a vida cotidiana. Se todo mundo pode crer no que quiser e eu não posso rir de qualquer crença, o crente tem dois direitos e eu nenhum?

Todas as contradições vieram à tona.

A solução iluminista era mais ou menos assim: você tem direito de crer, eu tenho direito de rir da sua crença, podemos discutir sobre isso, tentar, se for o caso, resolver nossas diferenças na justiça ou ficar cada um no seu canto.

Novas mentalidades surgiram. Esse “pacto” não funciona mais. Quem tem poder, faz leis que o protejam do humor.

Ser ou não ser Charile, eis a questão que gera mais dúvidas do que respostas.

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juremir-machadoJuremir Machado da Silva, nascido em 29 de janeiro de 1962, em Santana do Livramento, graduou-se em História (bacharelado e licenciatura) e em Jornalismo pela PUCRS, onde também fez Especialização em Estilos Jornalísticos. Passou pela Faculdade de Direito da UFRGS, onde também chegou a cursar os créditos do mestrado em Antropologia. Obteve o Diploma de Estudos Aprofundados e o Doutorado em Sociologia na Universidade Paris V, Sorbonne, onde também fez pós-doutorado. Como jornalista, foi correspodente internacional de Zero Hora em Paris, trabalhou na IstoÉ e colaborou com a Folha de S. Paulo. Atua como colunista do Correio do Povo desde o ano 2000. Tem 27 livros individuais publicados, entre os quais Getúlio, 1930, águas da revolução, Solo, Vozes da Legalidade e História regional da infâmia, o destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras. Coordena o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS. Apresenta diariamente, ao lado de Taline Oppitz, o programa Esfera Pública, das 13 às 14 horas, na Rádio Guaíba.

Žižek: Pensar o atentado ao Charlie Hebdo

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Por Slavoj Žižek.*

É agora, quando estamos todos em estado de choque depois da carnificina na sede do Charlie Hebdo, o momento certo para encontrar coragem para pensar. Devemos, é claro, condenar sem ambiguidade os homicídios como um ataque contra a essência da nossa liberdade, e condená-los sem nenhuma ressalva oculta (no estilo de “Charlie Hebdo estava todavia provocando e humilhando os muçulmanos demais da conta”). Mas tal pathos de solidariedade universal não é suficiente – devemos pensar adiante.

O pensar de que falo não tem absolutamente nada a ver com uma relativização fácil do crime (o mantra do “quem somos nós ocidentais, que cometemos massacres terríveis no terceiro mundo, para condenar atos como estes?”). E tem menos ainda a ver com o medo patológico de tantos esquerdistas liberais ocidentais de sentirem-se culpados de islamofobia. Para estes falsos esquerdistas, qualquer crítica ao Islã é rechaçada como expressão da islamofobia ocidental: Salman Rushdie foi acusado de ter provocado desnecessariamente os muçulmanos, e é portanto responsável (ao menos em parte) pelo fatwa que o condenou à morte etc.

O resultado de tal postura só pode ser esse: o quanto mais os esquerdistas liberais ocidentais mergulham em seu sentimento de culpa, mais são acusados por fundamentalistas muçulmanos de serem hipócritas tentando ocultar seu ódio ao Islã. Esta constelação perfeitamente reproduz o paradoxo do superego: o quanto mais você obedece o que o outro exige de você, mais culpa sentirá. É como se o quanto mais você tolerar o Islã, tanto mais forte será sua pressão em você…

É por isso que também me parecem insuficientes os pedidos de moderação na linha da alegação de Simon Jenkins (no The Guardian de 7 de janeiro) de que nossa tarefa é “não exagerar a reação, não sobre-publicizar o impacto do acontecimento. É tratar cada evento como um acidente passageiro do horror” – o atentado ao Charlie Hebdo não foi um mero “acidente passageiro do horror”. Ele seguiu uma agenda religiosa e política precisa e foi como tal claramente parte de um padrão muito mais amplo. É claro que não devemos nos exaltar – se por isso compreendermos não sucumbir à islamofobia cega – mas devemos implacavelmente analisar este padrão.

A man holds a placard which reads "I am Charlie" to pay tribute during a gathering at the Place de la Republique in Paris

A marcha em Paris reuniu, no domingo (11/01/2015) mais de 3 milhões de pessoas. Entre a comoção e o repúdio ao terror da maioria das pessoas, os grandes jornais estamparam as fotos de autoridades internacionais muitas delas responsáveis diretamente por um terrorismo estatal que – ao mesmo tempo – é promotor, justificativa e vítima do terror global. Pensar “Charlie Hebdo” é pensar para além da simplificação do “terrostistas/fundamentais” versus “Estado democrático de Direito”: é pensar a necessária superação de uma ordem injusta que produz o terror como mecanismo de propaganda e perpetuação da dominação.

O que é muito mais necessário que a demonização dos terroristas como fanáticos suicidas heroicos é um desmascaramento desse mito demoníaco. Muito tempo atrás, Friedrich Nietzsche percebeu como a civilização ocidental estava se movendo na direção do “último homem”, uma criatura apática com nenhuma grande paixão ou comprometimento. Incapaz de sonhar, cansado da vida, ele não assume nenhum risco, buscando apenas o conforto e a segurança, uma expressão de tolerância com os outros: “Um pouquinho de veneno de tempos em tempos: que garante sonhos agradáveis. E muito veneno no final, para uma morte agradável. Eles tem seus pequenos prazeres de dia, e seus pequenos prazeres de noite, mas tem um zelo pela saúde. ‘Descobrimos a felicidade,’ dizem os últimos homens, e piscam.”

Pode efetivamente parecer que a cisão entre o Primeiro Mundo permissivo e a reação fundamentalista a ele passa mais ou menos nas linhas da oposição entre levar uma longa e gratificante vida cheia de riquezas materiais e culturais, e dedicar sua vida a alguma Causa transcendente. Não é esse o antagonismo entre o que Nietzsche denominava niilismo “passivo” e “ativo”? Nós no ocidente somos os “últimos homens” nietzschianos, imersos em prazeres cotidianos banais, enquanto os radicais muçulmanos estão prontos a arriscar tudo, comprometidos com a luta até sua própria autodestruição. O poema “The Second Comming” [O segundo advento], de William Butler Yeats parece perfeitamente resumir nosso predicamento atual: “Os melhores carecem de toda convicção, enquanto os piores são cheios de intensidade apaixonada”. Esta é uma exelente descrução da atual cisão entre liberais anêmicos e fundamentalistas apaixonados. “Os melhores” não são mais capazes de se empenhar inteiramente, enquanto “os piores” se empenham em fanatismo racista, religioso e machista.

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#JeSuisBaga – Grupo terrorista Boko Haram dizimou uma cidade inteira do nordeste da Nigéria, assassinando cerca de duas mil pessoas. Boko Haram é uma organização fundamentalista islâmica de métodos terroristas, que busca a imposição da lei Sharia no norte/nordeste da Nigéria.

No entanto, será que os fundamentalistas religiosos realmente se encaixam nessa descrição? O que obviamente lhes carece é um elemento que é fácil identificar em todos os autênticos fundamentalistas, dos budistas tibetanos aos amistas nos EUA: a ausência de ressentimento e inveja, a profunda indiferença perante o modo de vida dos não-crentes. Se os ditos fundamentalistas de hoje realmente acreditam que encontraram seu caminho à Verdade, por que deveriam se sentir ameaçados por não-crentes, por que deveriam invejá-los? Quando um budista encontra um hedonista ocidental, ele dificilmente o condena. Ele só benevolentemente nota que a busca do hedonista pela felicidade é auto-derrotante. Em contraste com os verdadeiros fundamentalistas, os pseudo-fundamentalistas terroristas são profundamente incomodados, intrigados, fascinados pela vida pecaminosa dos não-crentes. Tem-se a sensação de que, ao lutar contra o outro pecador, eles estão lutando contra sua própria tentação.

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É aqui que o diagnóstico de Yeats escapa ao atual predicamento: a intensidade apaixonada dos terroristas evidencia uma falta de verdadeira convicção. O quão frágil a crença de um muçulmano tem de ser para ele se sentir ameaçado por uma caricatura besta em um semanário satírico? O terror islâmico fundamentalistanão é fundado na convicção dos terroristas de sua superioridade e em seu desejo de salvaguardar sua identidade cultural-religiosa da investida da civilização global consumista.

O problema com fundamentalistas não é que consideramos eles inferiores a nós, mas sim que eles próprios secretamente se consideram inferiores. É por isso que nossas reafirmações politicamente corretas condescendentes de que não sentimos superioridade alguma perante a eles só os faz mais furiosos e alimenta seu ressentimento. O problema não é a diferença cultural (seu esforço para preservar sua identidade), mas o fato inverso de que os fundamentalistas já são como nós, que eles secretamente já internalizaram nossas normas e se medem a partir delas. Paradoxalmente, o que os fundamentalistas verdadeiramente carecem é precisamente uma dose daquela convicção verdadeiramente “racista” de sua própria superioridade.

As recentes vicissitudes do fundamentalismo muçulmano confirmam o velho insight benjaminiano de que “toda ascensão do fascismo evidencia uma revolução fracassada”: a ascensão do fascismo é a falência da esquerda, mas simultaneamente uma prova de que havia potencial revolucionário, descontentamento, que a esquerda não foi capaz de mobilizar.

E o mesmo não vale para o dito “islamo-fascismo” de hoje? Não será a ascensão do islamismo radical exatamente correlativa à desaparição da esquerda secular nos países muçulmanos? Quando, lá na primavera de 2009, o Taliban tomou o vale do Swat no Paquistao, o New York Times publicou que eles arquitetaram uma “revolta de classe que explora profundas fissuras entre um pequeno grupo de proprietários abastados e seus inquilinos sem terra”. Se, no entanto, ao “tirar vantagem” da condição dos camponeses, o Taliban está “chamando atenção para os riscos ao Paquistão, que permanece em grande parte feudal”, o que garante que os democratas liberais no Paquistão, bem como os EUA,  também não “tirem vantagem” dessa condição e procurem ajudar os camponeses sem terra? A triste implicação deste fato é que as forças feudais no Paquistão são os “aliados naturais” da democracia liberal…

Mas como ficam então os valores fundamentais do liberalismo (liberdade, igualdade, etc.)? O paradoxo é que o próprio liberalismo não é forte o suficiente para salvá-los contra a investida fundamentalista. O fundamentalismo é uma reação – uma reação falsa, mistificadora, é claro – contra uma falha real do liberalismo, e é por isso que ele é repetidamente gerado pelo liberalismo. Deixado à própria sorte, o liberalismo lentamente minará a si próprio – a única coisa que pode salvar seus valores originais é uma esquerda renovada. Para que esse legado fundamental sobreviva, o liberalismo precisa da ajuda fraterna da esquerda radical. Essa é a única forma de derrotar o fundamentalismo, varrer o chão sobre seus pés.

Pensar os assassinatos de Paris significa abrir mão da auto-satisfação presunçosa de um liberal permissivo e aceitar que o conflito entre a permissividade liberal e o fundamentalismo é essencialmente um falso conflito – um ciclo vicioso de dois polos gerando e pressupondo um ao outro. O que Max Horkheimer havia dito sobre o Fascismo e o capitalismo já nos anos 1930 – que aqueles que não estiverem dispostos falar criticamente sobre o capitalismo devem se calar sobre o fascismo – deve ser aplicada também ao fundamentalismo de hoje: aqueles que não estiverem dispostos a falar criticamente sobre a democracia liberal devem também se calar sobre o fundamentalismo religioso.

* Publicado originalmente na New Statesman em 10 de janeiro de 2015.
A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.


slavoj_zizekSlavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011) e o mais recente, Vivendo no fim dos tempos (2012).