“Minha pátria é a língua portuguesa” (Fernando Pessoa)

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A língua portuguesa no mundo em dois minutos. 800 anos; 250 milhões de falantes e muitas histórias a contar.

Veja o vídeo: http://observador.pt/episodio/dois-minutos-para-conhecer-lingua-portuguesa-mundo/

Bernardo Soares* | Fernando Pessoa
Gosto de dizer.

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio…» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é – não – a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Fonte: http://arquivopessoa.net/textos/4520

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fp3*De Bernardo Soares disse Pessoa que era, não um heterónimo, mas um semi-heterónimo (ou “personalidade literária”, como também lhe chamou). Na já tão mencionada carta de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa justifica o porquê de não o considerar como os outros:

«O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as faculdades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual […]»

Ora, se Pessoa pouco nos diz desta sua “personalidade literária”, dele ficamos a conhecer, pela leitura do Livro, a condição de ajudante de guarda-livros, vivendo e trabalhando na Baixa lisboeta, contactando com o universo ‘cinzento’ da paisagem que o rodeia, a citadina e a humana, a dos cafés que frequenta, a do escritório da Rua dos Douradores, com o patrão Vasques, o Moreira ou o moço de fretes. Vivia num quarto alugado e conversava sobre literatura com Fernando Pessoa, tendo mostrado apreço pela revista Orpheu. Ter-lhe-ia confessado mesmo que, «não tendo para onde ir, nem amigos que visitasse, soia gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também». Da sua escrita resultaram os fragmentos (designá-los-ei por f.) do que viria a ser o Livro do Desassossego.

TODAS AS PALAVRAS | Manuel António Pina

TODAS AS PALAVRAS | Manuel António Pina
As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram
e partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de
mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia,
por acaso,
e com quem agora,
como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.

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pina*Manuel António Pina (Sabugal, 18 de novembro de 1943 — Porto, 19 de outubro de 2012 ) foi um jornalista e escritor português, premiado em 2011 com o Prémio Camões. O escritor licenciou-se em direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e foi jornalista do Jornal de Notícias durante três décadas, tendo sido depois cronista do Jornal de Notícias e da revista Notícias Magazine. A sua obra incidiu principalmente na poesia e na literatura infanto-juvenil, embora tenha escrito também diversas peças de teatro e de obras de ficção e crónica. Algumas dessas obras foram adaptadas ao cinema e TV e editadas em disco. A sua obra se difundiu em países como França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária. A 9 de Junho de 2005 foi feito Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Faleceu no dia 19 de Outubro de 2012 no Hospital de Santo António no Porto.

“Quando vier a Primavera”, Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

7-11-1915
“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). – 87.
1ª publ. in “Poemas Inconjuntos”. In Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.

 

Um poema, uma música e várias histórias

“A vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa
cansativa, um exílio”.
(F. Nietzsche In: Cartas a Peter Gast, Nice, 15 de janeiro de 1888)

De la musique avant toute chose!
“Música em primeiro lugar,
e por que prefere ela o ímpar
o mais vago e mais solúvel no ar
sem nada nela, que pese ou suporte.”
(Paul-Marie Verlaine, In: Art Poétique (1885),
considerado um verdadeiro manifesto da poesia simbolista.

Minha lembrança musical mais remota é da minha mãe – a inesquecível Noversey Rocha Martins ou simplesmente “Novinha”, apelido ganho na sua infância em São Gabriel – RS – cantando variadas canções francesas. Reputo a esse imaginário o fato de desde cedo tentar aprender a língua de Sartre através das músicas de Piaf, Trenet, Christophe entre outros. Entretanto, devido as condições financeiras da minha família (nenhuma, diga-se de passagem!) só pude ter acesso a livros com a língua de Rousseau no meu ingresso em 1993 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A exigência dos meus professores de Filosofia Antiga era a leitura direta do francês dos principais comentaristas de Platão, Dèscartes etc. Em decorrência da inúmeras dificuldades que enfrentava, acabei estudando a língua sem os devidos cuidados do ponto de vista gramatical.

Já adulto, em meio ao envolvimento com o magistério e a política, nunca deixei de reservar um grande espaço para apreciar a música e literatura francesa. Entre todas as músicas que acalento, tenho uma preferida. Trata-se de uma adaptação direta feita por Charles Trenet (1913 – 2001) de um poema do grande Paul-Marie Verlaine (1844 – 1896).

Trenet foi um cantor, compositor, letrista de cerca de mil canções, artista plástico, poeta e escritor, revolucionou a música francesa nos anos 1940 com versos inspirados e estética semelhante aos poemas de Paul Éluard e Jacques Prévert.  Charles Trenet esteve várias vezes no Brasil entre 1947 e 1955, onde era grande sua popularidade. Vítima de preconceito por assumir abertamente sua homossexualidade e obrigado a provar que não era judeu, Trenet produziu vários sucessos, entre eles Douce France que virara hino da Resistência contra a ocupação nazista.

A poesia de Paul-Maria Verlaine (1844 – 1896), “Chanson d’automne”   publicado originalmente em Poèmes Saturniens (1866) sintetiza perfeitamente a arte simbolista, que sofreu influência da filosofia de Arthur Schopenhauer (1788 – 1860). Verlaine, foi um dos primeiros poetas a evidenciar a musicalidade da poesia.

“A música está de tal forma entranhada nesse poema que traduzi-lo para o português é tarefa quase impossível”, chama a atenção Carlos Machado | http://virou.gr/MjwV8q | que apresenta três versões de literatas brasileiros ao poema de Verlaine.

Como o objetivo do post não é técnica de tradução, mas ressaltar a beleza da música/poesia francesa, fiz uma versão direta da tradução para quem é leigo na língua francesa possa entender.


VERLAINE
Chanson d’automne (Charles Trenet) baseado no poema CHANSON D’AUTOMNE (Canção do Outono) de Paul-Marie Verlaine (1844 – 1896) publicado originalmente em Poèmes Saturniens (1866)

Les sanglots longs
Os longos soluços
Des violons
Dos violões (violinos)
De l’automne
Do outono
Blessent mon coeur
Ferem meu coração
D’une langueur
De uma lânguida
Monotone.
Monotonia. 

Tout suffocant
Tudo sufoca
Et blême, quand
E fica pálido, quando
Sonne l’heure,
Soa a hora,
Je me souviens
Eu me recordo
Des jours anciens
Dos dias passados
Et je pleure.
E choro. 

Et je m’en vais
E vou-me
Au vent mauvais
Ao mau vento
Qui m’emporte
Que me importa
Deçà, delà,
De cá pra lá
Pareil à la
Como faz à
Feuille morte.
Folha morta.

[…] Cette paisible rumeur-là / Vient dans la ville. […]
Esse suave murmúrio / vem da cidade*.

*Verlaine, In: Le ciel est par-dessus le toit (1881)

Dia D | 6.6.1944
Coincidentemente, no dia em que posto o lindo poema de Verlaine, lembramos o chamado Dia D, que iniciou a libertação da Europa do jugo nazista. Embora a guerra tenha sido realmente vencida no front leste pelo exército russo, a data ficou marcada como o começo do fim de um regime totalitário que ceifou a vida de mais de 80 milhões de pessoas.

A música de Charles Trenet foi utilizada pelo aliados para avisar a Resistência Francesa do início da Operação Overlord, com o desembarque das tropas na Normandia. A música foi tocada repetidamente pela BBC a partir de Londres.

[…] Cette paisible rumeur-là / Vient dans la ville…
Ao final da música, Trenet introduz um verso da poema Le ceil est par dessus le toit  [In: Sagesse (1881)], que Verlaine cita ao lembrar dos anos que ficara aprisionado em Mons, após ter sido condenado por tentativa de assassinato contra o conhecido poeta Rimbaud (1854 – 1891). A frase é atribuída a única paisagem que Verlaine teve durante seu aprisionamento: uma pequena janela de onde via a cidade e a torre da igreja.

Le ciel est par-dessus le toit, 
Si bleu, si calme !
Un arbre par-dessus le toit berce sa palme.
La cloche dans le ciel qu’on voit, doucement tinte.

Un oiseau sur l’arbre qu’on voit
Chante sa plainte.
Mon Dieu, mon Dieu, la vie est là, simple et tranquille.
Cette paisible rumeur-là
Vient dans la ville.

– Qu’as-tu fait, ô toi que voilà
Pleurant sans cesse
Dis, qu’as-tu fait, toi que voilà,
De ta jeunesse ?

Dedicatória
Dedico o post as amadas primas Magali Telles e Vânia Gomes. Apesar da distância física, as “meninas” continuam iluminando a todos em seu redor pela inteligência, sabedoria e sensibilidade.

Referências

  1. Wikipedia.
  2. VERLAINE, Paul-Marie. Poèmes Saturniens (1866).
  3. MACHADO, Carlos. Sinfonia em versos. Disponível em http://virou.gr/MjwV8q .
  4. Bowden, Mark; Ambrose, Stephen E.  Our finest day: D-Day: June 6, 1944. Chronicle. p. 8, 2002. ISBN 978-0-8118-3050-8.
  5. Hall, Anthony. D-Day: Operation Overlord Day by Day. Zenith. p. 100, 2004. ISBN 978-0-7603-1607-8.
  6. VERLAINE, Paul-Marie. Sagesse (6ème pièce de la partie III), 1880.