Edgar Morin e o pensamento complexo – IHU – Unisinos | 402 – ano XII Set2012

Leia a íntegra da edição em: http://www.ihuonline.unisinos.br/impressa/pdf/revista.pdf

Quem é Edgar Morin? Saiba mais sobre sobre o filósofo da complexidade.

Edgar Morin nasceu em Paris, no dia 8 de julho de 1921. É um antropólogo, sociólogo e filósofo francês, judeu de origem sefardita. Pesquisador emérito do Centre National de la Recherche Scientifique. Formado em Direito, História e Geografia, realizou estudos em filosofia, sociologia e epistemologia. É autor de mais de trinta livros, entre eles: O método (6 volumes), Introdução ao pensamento complexo, Ciência com consciência e Os sete saberes necessários para a educação do futuro. Durante a Segunda Guerra Mundial, participou da Resistência Francesa. É considerado um dos principais pensadores contemporâneos e um dos principais teóricos da complexidade. Filho único, seu pai, Vidal Nahoum, era um comerciante originário de Salônica. Sua mãe, Luna Beressi, faleceu quando ele tinha 10 anos. Ateu declarado, descreve-se como um neomarrano.

A principal obra de Edgar Morin é a constituída por seis volumes, “La méthode” (em português, O Método). Foi escrita durante três décadas e meia. Trata-se de uma das maiores obras de epistemologia disponível. Morin inicia os primeiros escritos de da obra em 1973, com a publicação do livro O paradigma perdido: a natureza humana, uma transformação epistemológica por questionar o fechamento ideológico e paradigmático das ciências, além de apresentar uma alternativa à concepção de paradigma encontrada em Thomas Kuhn. Seu primeiro livro traduzido para o português é O cinema ou o homem imaginário, em 1958.

Morin afirma que diante dos problemas complexos que as sociedades contemporâneas hoje enfrentam, apenas estudos de caráter inter e politransdisciplinar poderiam resultar em análises satisfatórias de tais complexidades. “Afinal – escreve –, de que serviriam todos os saberes parciais senão para formar uma configuração que responda a nossas expectativas, nossos desejos, nossas interrogações cognitivas?”

Disponível em: http://migre.me/aBgaN.

O Método – Edgar Morin

Método 1 – A Natureza da Natureza (Europa América: Portugal 1987. Porto Alegre: Sulina, 2003)
O Método 2 – A vida da vida (Europa América, 1999. Sulina, 2001)
O Método 3 – O Conhecimento do Conhecimento (Europa América, 1996. Sulina, 2002)
O Método 4 – As ideias: habitat, vida, costumes, organização (Sulina, 2002. Europa América, 2002)
O Método 5 – a humanidade da humanidade: a identidade humana (Sulina, 2003. Europa América, 2003)
O Método VI – A Ética (Europa América, 2005. Sulina, 2005)

Com informações do Instituto de Humanidades – IHU da UNISINOS.

Um poema, uma música e várias histórias

“A vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa
cansativa, um exílio”.
(F. Nietzsche In: Cartas a Peter Gast, Nice, 15 de janeiro de 1888)

De la musique avant toute chose!
“Música em primeiro lugar,
e por que prefere ela o ímpar
o mais vago e mais solúvel no ar
sem nada nela, que pese ou suporte.”
(Paul-Marie Verlaine, In: Art Poétique (1885),
considerado um verdadeiro manifesto da poesia simbolista.

Minha lembrança musical mais remota é da minha mãe – a inesquecível Noversey Rocha Martins ou simplesmente “Novinha”, apelido ganho na sua infância em São Gabriel – RS – cantando variadas canções francesas. Reputo a esse imaginário o fato de desde cedo tentar aprender a língua de Sartre através das músicas de Piaf, Trenet, Christophe entre outros. Entretanto, devido as condições financeiras da minha família (nenhuma, diga-se de passagem!) só pude ter acesso a livros com a língua de Rousseau no meu ingresso em 1993 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A exigência dos meus professores de Filosofia Antiga era a leitura direta do francês dos principais comentaristas de Platão, Dèscartes etc. Em decorrência da inúmeras dificuldades que enfrentava, acabei estudando a língua sem os devidos cuidados do ponto de vista gramatical.

Já adulto, em meio ao envolvimento com o magistério e a política, nunca deixei de reservar um grande espaço para apreciar a música e literatura francesa. Entre todas as músicas que acalento, tenho uma preferida. Trata-se de uma adaptação direta feita por Charles Trenet (1913 – 2001) de um poema do grande Paul-Marie Verlaine (1844 – 1896).

Trenet foi um cantor, compositor, letrista de cerca de mil canções, artista plástico, poeta e escritor, revolucionou a música francesa nos anos 1940 com versos inspirados e estética semelhante aos poemas de Paul Éluard e Jacques Prévert.  Charles Trenet esteve várias vezes no Brasil entre 1947 e 1955, onde era grande sua popularidade. Vítima de preconceito por assumir abertamente sua homossexualidade e obrigado a provar que não era judeu, Trenet produziu vários sucessos, entre eles Douce France que virara hino da Resistência contra a ocupação nazista.

A poesia de Paul-Maria Verlaine (1844 – 1896), “Chanson d’automne”   publicado originalmente em Poèmes Saturniens (1866) sintetiza perfeitamente a arte simbolista, que sofreu influência da filosofia de Arthur Schopenhauer (1788 – 1860). Verlaine, foi um dos primeiros poetas a evidenciar a musicalidade da poesia.

“A música está de tal forma entranhada nesse poema que traduzi-lo para o português é tarefa quase impossível”, chama a atenção Carlos Machado | http://virou.gr/MjwV8q | que apresenta três versões de literatas brasileiros ao poema de Verlaine.

Como o objetivo do post não é técnica de tradução, mas ressaltar a beleza da música/poesia francesa, fiz uma versão direta da tradução para quem é leigo na língua francesa possa entender.


VERLAINE
Chanson d’automne (Charles Trenet) baseado no poema CHANSON D’AUTOMNE (Canção do Outono) de Paul-Marie Verlaine (1844 – 1896) publicado originalmente em Poèmes Saturniens (1866)

Les sanglots longs
Os longos soluços
Des violons
Dos violões (violinos)
De l’automne
Do outono
Blessent mon coeur
Ferem meu coração
D’une langueur
De uma lânguida
Monotone.
Monotonia. 

Tout suffocant
Tudo sufoca
Et blême, quand
E fica pálido, quando
Sonne l’heure,
Soa a hora,
Je me souviens
Eu me recordo
Des jours anciens
Dos dias passados
Et je pleure.
E choro. 

Et je m’en vais
E vou-me
Au vent mauvais
Ao mau vento
Qui m’emporte
Que me importa
Deçà, delà,
De cá pra lá
Pareil à la
Como faz à
Feuille morte.
Folha morta.

[…] Cette paisible rumeur-là / Vient dans la ville. […]
Esse suave murmúrio / vem da cidade*.

*Verlaine, In: Le ciel est par-dessus le toit (1881)

Dia D | 6.6.1944
Coincidentemente, no dia em que posto o lindo poema de Verlaine, lembramos o chamado Dia D, que iniciou a libertação da Europa do jugo nazista. Embora a guerra tenha sido realmente vencida no front leste pelo exército russo, a data ficou marcada como o começo do fim de um regime totalitário que ceifou a vida de mais de 80 milhões de pessoas.

A música de Charles Trenet foi utilizada pelo aliados para avisar a Resistência Francesa do início da Operação Overlord, com o desembarque das tropas na Normandia. A música foi tocada repetidamente pela BBC a partir de Londres.

[…] Cette paisible rumeur-là / Vient dans la ville…
Ao final da música, Trenet introduz um verso da poema Le ceil est par dessus le toit  [In: Sagesse (1881)], que Verlaine cita ao lembrar dos anos que ficara aprisionado em Mons, após ter sido condenado por tentativa de assassinato contra o conhecido poeta Rimbaud (1854 – 1891). A frase é atribuída a única paisagem que Verlaine teve durante seu aprisionamento: uma pequena janela de onde via a cidade e a torre da igreja.

Le ciel est par-dessus le toit, 
Si bleu, si calme !
Un arbre par-dessus le toit berce sa palme.
La cloche dans le ciel qu’on voit, doucement tinte.

Un oiseau sur l’arbre qu’on voit
Chante sa plainte.
Mon Dieu, mon Dieu, la vie est là, simple et tranquille.
Cette paisible rumeur-là
Vient dans la ville.

– Qu’as-tu fait, ô toi que voilà
Pleurant sans cesse
Dis, qu’as-tu fait, toi que voilà,
De ta jeunesse ?

Dedicatória
Dedico o post as amadas primas Magali Telles e Vânia Gomes. Apesar da distância física, as “meninas” continuam iluminando a todos em seu redor pela inteligência, sabedoria e sensibilidade.

Referências

  1. Wikipedia.
  2. VERLAINE, Paul-Marie. Poèmes Saturniens (1866).
  3. MACHADO, Carlos. Sinfonia em versos. Disponível em http://virou.gr/MjwV8q .
  4. Bowden, Mark; Ambrose, Stephen E.  Our finest day: D-Day: June 6, 1944. Chronicle. p. 8, 2002. ISBN 978-0-8118-3050-8.
  5. Hall, Anthony. D-Day: Operation Overlord Day by Day. Zenith. p. 100, 2004. ISBN 978-0-7603-1607-8.
  6. VERLAINE, Paul-Marie. Sagesse (6ème pièce de la partie III), 1880.