Atualidades: Israel amplia ofensiva em Gaza

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Israel iniciou na madrugada desta sexta-feira (16.11.2012) a ampliação de sua ofensiva contra Gaza, seguindo determinação anunciada na véspera pelo chefe do Estado-Maior do Exército israelense, general Benny Gantz.

  • Crise ocorre em momento mais instável do Oriente Médio. http://goo.gl/2k03X
  • Ministro israelense diz que Gaza deve “voltar a idade média”. http://wp.me/x2vq

Além de alvos militares, como depósitos de armas e quartéis, o Exército israelense passou a bombardear também alvos civis ligados à infraestrutura e ao governo do Hamas na Faixa de Gaza.

Gantz havia anunciado decisão do gabinete israelense para ampliar “o número e a qualidade dos alvos” a serem atacados na Faixa de Gaza, no terceiro dia da chamada operação “Coluna de Nuvem”.

  • ‘Por que meu filho teve de morrer assim?’, diz editor da BBC em Gaza. http://goo.gl/W4der
  • Israel intensifica ataques a Gaza e destrói sede do Hamas. http://goo.gl/UD7by

De acordo com o governo israelense, o objetivo da operação é “restaurar a tranquilidade para o sul de Israel e recuperar o poder de dissuasão frente ao Hamas”.

A ofensiva, que conta com a participação da Força Aérea, da Marinha e da Infantaria, será reforçada com mais 16 mil reservistas, segundo o porta-voz do Exército, em uma “primeira etapa”.

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Disparidade de forças
Durante a noite e a madrugada desta sexta-feira, as tropas israelenses bombardearam 250 alvos na Faixa de Gaza, inclusive um transformador elétrico que ficava próximo à residência do primeiro ministro do Hamas, Ismail Haniya, deixando grande parte da população da região sem energia.

Todos os grupos palestinos – Hamas, Jihad Islâmico, Comitê de Resistência Popular e grupos salafistas – se uniram nos ataques a Israel e, desde a tarde da quarta feira, quando começaram os confrontos, já lançaram mais de 300 foguetes contra as cidades israelenses.

A disparidade de forças entre Israel e os grupos palestinos fica cada vez mais evidente à medida que os confrontos se agravam.

A supremacia tecnológica do lado israelense possibilita que muitos dos foguetes lançados a partir de Gaza, que poderiam ter consequências fatais, sejam derrubados no ar, pelo sistema de defesa antimísseis chamado Domo de Ferro.

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O sistema derrubou cerca de 30% dos foguetes lançados e é programado para destruir os foguetes que irão cair em áreas habitadas. Mesmo assim, um dos foguetes atingiu um prédio residencial na cidade de Kiriat Malachi, no sul de Israel, matando três civis israelenses.

De acordo com os analistas militares, o Domo de Ferro é “eficaz, mas não é hermético”.

Dois misseis do tipo Fajer, de produção iraniana, foram lançados contra Tel Aviv, mas caíram em áreas abertas, sem deixar feridos ou danos materiais.

No entanto, para o governo israelense, o fato de que houve uma tentativa por parte dos grupos palestinos de atingir a maior cidade do país significa uma escalada que será seguida por um endurecimento do ataque a Gaza.

Tel Aviv, que não havia sido alvo de ataques desde a primeira Guerra do Golfo, em 1991, entrou nesta quinta-feira em estado de prontidão, quando as sirenes antiaéreas soaram em toda a cidade.

Pessoas que estavam nas ruas se jogaram ao chão, ou correram para prédios nos arredores, e depois do alarme as ruas da cidade se esvaziaram.

Apoio político
Faixa de Gaza, a maioria dos comerciantes fechou as lojas e a população tenta estocar alimentos, sem saber quanto tempo os confrontos irão durar.

Segundo as últimas informações, desde o início da ofensiva, 20 palestinos morreram e cerca de 200 ficaram feridos. Entre os palestinos mortos, no mesmo ataque que matou o líder do Hamas, morreu também um bebê de 11 meses, Omar, filho de Jihad Misharawi, um editor de imagens da BBC em Gaza. O irmão mais velho de Omar e seu tio estão em estado grave.

Na Faixa de Gaza, o Hamas dirige um comando central que integra todas as organizações armadas.

Em Israel, quase todos os partidos políticos manifestaram apoio à ofensiva.

A principal líder da oposição, Shely Yahimovitz, do Partido Trabalhista, afirmou que o ataque é “necessário e justificado”.

Só o partido social-democrata Meretz, que conta com 3 cadeiras (entre 120) no parlamento, e os três partidos que representam a população árabe-israelense (que têm 11 cadeiras), são contra a operação Coluna de Nuvem.

Com informações da BBC.

Discurso vazio contra as cotas não resiste aos números. Por Alceu Nader.

Política afirmativa no serviço público também é adotada por países em desenvolvimento como reparação

A notícia pareceu uma simples estatística: entre 1997 e 2011, quintuplicou a percentagem de negros e pardos que cursam ou concluíram o curso superior, indo de 4% para 19,8%. Em números brutos, foram 12,8 milhões de jovens de 18 a 24 anos.

Poucos países do mundo conseguiram resultado semelhante em tão pouco tempo. Para ter uma ideia do tamanho dessa conquista, em 2011 a percentagem de afrodescendentes matriculados em universidades americanas chegou a 13,8%, 3 milhões em números brutos. Isso depois de meio século de lutas e leis.

O percentual de 1997 retratava um Brasil que precisava mudar. O de 2011, uma sociedade que está mudando, para melhor. Por trás desse êxito estão políticas de cotas ou estímulos nas universidades públicas e no ProUni.

Elio Gaspari – Folha de São Paulo

Desde o último domingo, quando veio a público a notícia de que a presidenta Dilma Rousseff está prestes a anunciar mais uma série de ações afirmativas, desta vez para facilitar o ingresso de negros e outras etnias no serviço público, o sistema de cotas voltou a ser torpedeado em artigos e editoriais dos grandes jornais. Até aí, nada de mais. Raras vezes as grandes empresas de mídia abraçaram causas humanitárias, exceto aquelas que podem ser revertidas em ganho de imagem.

Nos seus argumentos (não por acaso, os mesmos que a oposição utilizou, sem sucesso, no Congresso Nacional), as empresas de mídia defendem que o mérito deve prevalecer ao reparo do jugo escravocrata, acenando para a inclusão do que chamam de “racialismo” na sociedade brasileira. Para todos os grupos empresariais, indistintamente, dizem, a instituição das cotas vai envenenar nossa paz social, em cujas mazelas não consta o ódio racial.

No Brasil, as estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mais do que justificam as cotas. Os pretos e pardos (denominação utilizada pelo IBGE) representam 50% do total da população brasileira. Essa proporção cai drasticamente quando levados para a população que frequenta o ensino superior.

Segundo o Censo do Ensino Superior de 2011, 25,6% dos jovens brancos com idade de 18 a 24 anos, estavam estudando ou haviam concluído curso em instituição de ensino superior.

Entre os negros, esse percentual cai para 8,8% dos jovens pretos e 11% dos jovens pardos.

Ou seja, proporcionalmente, cerca de um terço a menos de jovens pretos e menos da metade dos jovens pardos, em comparação com jovens brancos, tinham chegado à universidade.

Políticas afirmativas no mundo
A aposta na ignorância é perigosa, porque sonega informações fundamentais para se entender a razão das políticas afirmativas. O Brasil, quando muito, é comparado com os EUA, país onde a política de cotas começou a ser posta em prática nos anos 60 do século passado. As dificuldades que o governo norte-americano enfrentou à época são muito parecidas com as que o Brasil enfrenta cinquenta anos depois. O despreparo demonstrado por estudantes que só chegaram ao ensino superior porque foram beneficiados pelas cotas é um deles. Hoje, as ações afirmativas norte-americanas têm em Barack Obama seu resultado mais vistoso. O jovem negro – que só conseguiu estudar na faculdade porque foi beneficiado pelas cotas – tornou-se presidente da República. Essa informação não consta nos textos publicados pela mídia dominante. Pelo contrário, é omitida.

Ao mesmo tempo, as companhias globais com matriz em países desenvolvidos, como o Reino Unido e os EUA, por exemplo, criam diretorias ou gerências exclusivamente voltadas à promoção da diversidade étnica e à implementação de ações afirmativas em seu quadro de pessoal.

Enquanto isso, no Brasil, a mídia repete ao cansaço que a garantia de uma vaga universitária ou um posto de trabalho no serviço público é um privilégio que beneficia o negro pobre despreparado, em detrimento do branco que frequentou escola particular e teve condições de estudar.

Enfatiza-se, também, o caráter racial das cotas que o governo pretende implementar, o que não é verdade. Como mostra o gráfico abaixo, de cada 100 vagas a serem ocupadas por cotistas, apenas 26 são reservadas aos pretos, pardos e indígenas. Acompanhando o gráfico, tem-se que, de cada 100 vagas, 50 são destinadas aos cotistas que estudaram em escolas públicas – principal filtro de seleção. Destas cinquenta, metade destina-se aos jovens de famílias com renda inferior a 1,5 salário mínimo e a outra metade para famílias com renda acima de 1,5 salário mínimo. Somente neste estágio da seleção, entra o filtro com componente racial, destinando, no total, 26 vagas. Um em cada quase quatro jovens, portanto.

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Outra informação que não se encontra nos jornais, revistas ou emissoras de tevê brasileiras é que países de economia similar à do Brasil também adotaram as ações afirmativas, seja para reparar injustiças seculares ou manter a integridade de seu sistema político.

Na Índia, por exemplo, desde os anos 80 do século passado, 15% das vagas no serviço público vêm sendo reservadas aos integrantes das castas de “intocáveis”, os “dalit”. Outros 7,5% reservam-se para minorias tribais; e 27% para cerca de 3 mil subcastas sociais que eram ignoradas pelo Estado. Lá, como no Brasil, os beneficiados podem renunciar aos seus direitos – e abrir mão do benefício das cotas.

Além das vagas no serviço público, todos os tipos sociais alcançados pela lei das cotas gozam de isenção de pagamento para participar do concurso público e aviso obrigatório para usufruto das férias. A lei indiana também obriga as empresas a dar o mesmo destaque para os grupos sociais na publicidade e propaganda.

Na Malásia, as ações afirmativas começaram nos anos 40, quando o país ainda era colônia britânica. Elas beneficiam descendentes dos nativos e à comunidade “bumiputras”. Ambos os grupos, representam hoje dois terços da população e ocupam 90% dos postos púbicos.

Na Nigéria, as ações afirmativas foram implementadas durante a elaboração da primeira Constituição do País, em 1979. Tida como instrumento do governo para aperfeiçoar o processo de independência do país (antes, uma colônia britânica), seu objetivo é criar uma representação proporcional às etnias, religiões, regiões e distintos idiomas. Hoje, cada um dos 36 estados nigerianos participa com 2,75% do serviço público federal, enquanto cerca de 1% se constitui de pessoas do Distrito Federal onde se encontra a capital, Abuja.

Na África do Sul, finalmente, a ação afirmativa inclui raça, sexo e pessoas com deficiência. No período do apartheid, 90% do funcionalismo público era constituído por brancos. Em 1995, um ano depois de Nelson Mandela ser eleito presidente, foi criado o “Documento Branco sobre a Transformação dos Serviços Públicos” que incluiu as seguintes determinações: no prazo se quatro anos, todos os departamentos públicos deveriam ter 50% de seu pessoal de raça negra; no mesmo período, pelo menos 30% das novas contratações deveriam ser de mulheres; e no período de dez anos, pessoas com deficiência deveriam ocupar 2% do serviço púbico.

Alceu Nader

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IPEA: Em dez anos, renda dos mais pobres cresceu 90% no Brasil

Nos últimos dez anos, os 10% mais pobres do país tiveram um crescimento de renda acumulado de 91,2%, enquanto a parcela mais rica da população obteve nesse mesmo período um incremento de 16,6% da renda acumulada. Portanto, a variação do aumento de ganhos reais foi 5,5 vezes (550%) mais rápida para o décimo mais vulnerável dos brasileiros.

“Estatisticamente, em 2011 o Brasil atingiu o menor nível de desigualdade de sua história”, declarou nesta terça-feira, 25, o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Neri, durante a coletiva pública de lançamento do Comunicado do Ipea nº 155 – A década inclusiva (2001-2011): Desigualdade, pobreza e políticas de renda. O estudo, apresentado por ele com a participação do técnico de Planejamento e Pesquisa do Instituto Pedro Souza, foi elaborado a partir da recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2011, divulgada pelo IBGE, complementado por dados inéditos até agosto de 2012.

Marcelo Neri afirmou que a renda em crescimento e a redução da desigualdade são o caminho que o Brasil tem feito desde 2003. Ele também destacou que o ajuste nominal do salário mínimo, programas sociais como o Brasil Carinhoso, Brasil sem Miséria, Minha Casa Minha Vida e outras políticas do governo federal atuam na mesma direção da melhoria da renda do trabalho. “Os brasileiros acham que estão em um país, os macroeconomistas, em outro. O que é mais importante para explicar a renda das pessoas se não a renda do trabalho?”, afirmou.


Desigualdade horizontal
A pesquisa aponta que o combate à desigualdade horizontalizou melhorias de renda. Nesses dez anos, pessoas que vivem em famílias chefiadas por analfabetos tiveram 88,6% de aumento da renda, contra 11,1% de decréscimo para aquelas cujo chefe familiar possui 12 anos de instrução regular ou mais.

No Nordeste, a renda cresceu 72,8%, já no Sudeste, região mais rica do país, essa taxa foi de 45,8%. Entre aqueles que se consideram negros, o aumento de renda foi de 66,3%, e a população declarada como parda obteve melhoria de 85,5% do ganho pelo trabalho. Para os que se dizem brancos, o crescimento de renda foi de 47,6%.

Segundo o presidente do Ipea, a desigualdade mundial de renda caiu em grande parte devido o crescimento da China, bastante expressivo ao longo das últimas décadas, e da Índia, sobretudo nos anos 1990 e 2000. “Por mais que a desigualdade dentro desses e de outros países esteja crescendo, o avanço econômico e a melhoria de renda das suas populações têm causado o efeito mundial, pois esses países abrigam metade dos pobres do mundo”, frisou Neri.

Com informações do IPEA.

Limite de idade para ingresso nas Forças Armadas

Dr. Bernardo Brandão Costa
Advogado Especialista em Concursos Públicos e Direito Eleitoral
FanPage – Facebook: https://www.facebook.com/brandaoadvogados

Recentemente fui procurado por uma mãe aflita, cujo filho havia sido aprovado no Concurso para o Curso de Admissão ao Colégio Naval (PSACN), entretanto, ao ser convocado para o estágio de adaptação, foi eliminado por não ter a idade mínima exigida no edital do concurso.

Diante desse fato, informei à mãe que a exigência era ilícita, vez que só podem ser fixados limites de idade em concurso para as forças armadas se houver expressa previsão legal e, no caso, não há lei estabelecendo esses limites. Dessa forma, recomendei uma ação judicial, a fim de reintegrar o menor ao Colégio naval, o que foi feito.

O Mandado de Segurança foi ajuizado no dia 09/02/2012 e no dia 10/02/2012, juíza da 12ª. Vara Federal da Seção Judiciária do Estado do Rio de Janeiro, Dra. Fabíola Utzig Haselof, concedeu liminar determinando a imediata reinclusão do candidato eliminado do processo seletivo para o Curso de Admissão do Colégio Naval (PSACN), garantindo a frequência do Candidato no curso, ante a ilegalidade flagrante demonstrada no Mandado de Segurança.

É fora de dúvida que a Escola Naval pode estabelecer critérios diferenciados de admissão, desde que tais critérios estejam previstos em lei e sejam razoáveis, ou seja, não basta a previsão legal, é necessário que a lei fixe critérios razoáveis, sob pena de ser considerada inconstitucional pelo Poder Judiciário. Essa não é a única decisão neste sentido.

Recentemente, em outro processo por nós patrocinado, no qual um candidato à Escola Naval havia sido reprovado pelos mesmo fundamentos, o Desembargador Federal do TRF da 2ª Região, Dr. Reis Friede, reformou decisão de primeira instância, determinando que a Escola Naval reincluísse o candidato ao certame para cumprir as demais etapas e, se aprovado, que fosse matriculado na referida escola. (Processo nº. 0490381-68.2010.4.02.5101)

É forçoso reconhecer, portanto, que as Forças Armadas desrespeitaram, não só a Constituição, mas também a decisão do STF no RE 600.885/DF.

Grande Abraço a todos.

Modelo agrícola desperdiça 35% da produção brasileira

Vislumbrando o aumento do consumo de alimentos nos próximos vinte anos, a expansão agrícola deve considerar as áreas degradadas e investir em produtos diversificados, oriundos das florestas e biomas do país. “Só no território amazônico, existe entre 12% e 17% de áreas degradadas, que poderiam ser utilizadas para produção agrícola”, aponta o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, Adalberto Val. Em sua avaliação, a agricultura brasileira ainda está “concentrada em produtos que são extremamente convencionais”, e o país “não está avançando diante da enorme biodiversidade que tem”.

O desperdício de alimentos gerado pelo atual modelo de desenvolvimento agrícola é um desafio a ser resolvido. Segundo o pesquisador, cerca de 30% dos alimentos produzidos vai para o lixo, e isso significa que de “cada R$100,00 em produtos, perde-se cerca de R$30,00”. E enfatiza: “Trata-se de uma perda bastante significativa dentro desse contexto. Se você imaginar que, para um produtor ou um empregado, essa proporção poderia melhorar sua qualidade de vida, podemos dizer que vale a pena investir para reduzir essas perdas”.

Segundo o entrevistado, reaproveitar as terras já desmatadas e a diminuir o desperdício de alimentos dependem do investimento em ciência e tecnologia. “Há um grande interesse do governo, mas falta pessoal qualificado para estudar as regiões que têm terras degradadas”, diz em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone. E conclui: “Basta considerar o caso da Amazônia e dos nove estados amazônicos, ou seja, cerca de 60% do território brasileiro. Nessa área toda, tem pouco mais de quatro mil doutores, metade dos quais não está envolvida com a produção científica, pois muitos se encontram trabalhando com questões administrativas de uma maneira geral. Então, apesar de o Brasil estar formando 11 ou 12 mil doutores por ano, a quantidade desse pessoal fixada nessas áreas do país ainda é bastante frágil e reduzida”.

Adalberto Luis Val (foto) é graduado em Biologia, mestre e doutor em Biologia de Água Doce e Pesca Interior pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as razões de 35% da produção agrícola brasileira ir para o lixo? O que isso demonstra sobre o modelo agrícola brasileiro?

Adalberto Luis Val – A produção agrícola brasileira está concentrada em produtos que são extremamente convencionais. Quer dizer, o Brasil não está avançando diante da enorme biodiversidade que tem. Boa parte dos produtos agrícolas é desperdiçada ainda no campo, depois em função do transporte.

Apesar disso, cabe ressaltar, por um lado, as possibilidades que o Brasil tem de avançar de forma bastante significativa no uso de novos produtos a partir da diversidade biológica. Por outro, um aspecto extremamente relevante e importante dentro deste contexto é utilizar as áreas degradadas nos diferentes biomas brasileiros para produção agrícola. Só no território amazônico, existe entre 12% e 17% de áreas degradadas, que poderiam ser utilizadas para produção agrícola. Evidentemente que esse reaproveitamento das terras depende de informação científica. Portanto, a otimização não só para a redução das perdas agrícolas, mas também para utilização de áreas degradadas e para a busca de novos produtos na biodiversidade depende fundamentalmente de ciência e tecnologia. Por isso é preciso imediatamente direcionar recursos para que se possam utilizar novas tecnologias.

Eu não estou falando só da produção plantada no solo, mas também de outros processos de produção de proteínas, como a produção de peixes, que é uma alternativa extremamente importante e interessante para o Brasil por conta de sua vasta extensão hídrica. É possível avançar nesta área de forma significativa. O mundo aponta hoje para uma expansão de necessidade de alimentos para daqui a 20 ou 30 anos. Então, o Brasil vai precisar dobrar a produção de alimentos. Em vista disso, se fizer uma análise geral nos países do mundo que têm condições de atender a essa demanda, verá que é reduzido o número de países que são capazes de atender a essa questão e, entre eles, está o Brasil. O Brasil talvez seja um dos únicos países capaz de dobrar a produção agrícola em um curto espaço de tempo.

IHU On-Line – Como estão os investimentos em tecnologias para reaproveitar as áreas degradadas?

Adalberto Luis Val – Há um grande interesse do governo, mas falta pessoal qualificado para estudar as regiões que têm terras degradadas. Basta considerar o caso da Amazônia e dos nove estados amazônicos, ou seja, cerca de 60% do território brasileiro. Nessa área toda, tem pouco mais de quatro mil doutores, metade dos quais não está envolvida com a produção científica, pois muitos se encontram trabalhando com questões administrativas de uma maneira geral. Então, apesar de o Brasil estar formando 11 ou 12 mil doutores por ano, a quantidade desse pessoal fixada nessas áreas do país ainda é bastante frágil e reduzida.

IHU On-Line – Qual é o custo econômico e social desse desperdício para o Brasil?

Adalberto Luis Val – Em uma estimativa, o Brasil perde algo em torno de 30% de todo o processo agrícola. Isso significa que de cada R$100,00 em produtos, perde-se cerca de R$30,00. Trata-se de uma perda bastante significativa dentro desse contexto. Se você imaginar que, para um produtor ou um empregado, essa proporção poderia melhorar sua qualidade de vida, podemos dizer que vale a pena investir para reduzir essas perdas. Seria possível treinar melhor as pessoas em um processo de inclusão social mais efetivo, dentro de um processo educativo mais amplo.

IHU On-Line – Que mudanças seriam necessárias para reverter esse quadro? Seria o caso de modificar a logística do transporte ou pensar um novo modelo de desenvolvimento agrícola?

Adalberto Luis Val – Temos de caminhar nesses dois sentidos. A tendência geral sempre foi nos adaptarmos a um modelo pré-pronto e estudar uma melhoria do modelo. Portanto, precisamos de novos conceitos, novas modalidades para atuar na agricultura. Por isso o investimento em ciência e tecnologia no sentido de definir novas formas de transporte, novas formas de utilização e novas formas de armazenamento para os produtos agrícolas é fundamental.

IHU On-Line – Além do desperdício, quais são os outros gargalos que o circuito dos alimentos e a agricultura enfrentam no Brasil?

Adalberto Luis Val – A questão da segurança alimentar deixa o Brasil fragilizado. Na realidade, é preciso proteger melhor o processo de produção agrícola no país, principalmente no que se refere a sistemas que vulnerabilizam a agricultura. Nesse sentido, é necessário trabalhar fortemente para proteger o sistema agrícola, por um lado. Por outro, é necessário precisamos buscar novas variedades agrícolas, que sejam mais produtivas em determinados ambientes, de forma que se possa ampliar a produção de alimentos cultivados nas florestas e biomas brasileiros. Na Caatinga, no Pampa e na Mata Atlântica temos um conjunto bastante significativo de informações, que poderiam ser transformadas em novas oportunidades. Portanto, explorar, do ponto de vista da diversidade biológica, novos produtos e novas variedades é extremamente importante para melhorar a produção agrícola, inclusive dando mais competitividade a ela.

Outro aspecto extremamente importante é a questão da perspectiva desses novos cenários de mudanças climáticas que o Brasil e o mundo deverão enfrentar. Como o sistema de produção agrícola e de produção animal irão se comportar em cenários em que a temperatura será mais elevada e nos quais haverá maior concentração de dióxido de carbono na atmosfera?

IHU On-Line – Qual é o papel do Brasil diante da crise alimentar? E como conciliar a exportação com o consumo interno?

Adalberto Luis Val – Tenho insistido muito no seguinte: em algumas áreas o Brasil não pode ficar a “reboque” das agendas que são geradas em outros países. Por exemplo, no que se refere à biologia tropical, não há por que copiarmos ou executarmos uma agenda que não é nossa. O Brasil precisa ocupar o papel de protagonista nesse contexto de crise alimentar.

Em relação à questão do abastecimento interno, precisamos melhorar o processo educativo de uma maneira. Nós temos um vício cultural muito grande com relação ao desperdício de alimentos, e a solução desse problema depende de uma mudança de postura, que deverá vir a partir de mudanças profundas nos processos educativos do país.

IHU On-Line – Na última década o Brasil triplicou o uso de agrotóxicos na agricultura. É possível desenvolver uma agricultura sem a utilização desses produtos?

Adalberto Luis Val – É possível, principalmente com base no manejo biológico, que é fundamental nesse processo. Em um ambiente natural não é utilizado agrotóxico. Por que se usa o agrotóxico? Porque estamos trabalhando com uma variabilidade genética menor. Toda vez que trabalhamos com uma variabilidade genética menor, tornamos o organismo cultivado muito mais frágil, e aí a necessidade de usar o agrotóxico é cada vez maior. Na realidade, precisamos de um processo adaptativo de manejo biológico no sentido de manter a rusticidade dos organismos, plantas e animais, diante de um processo de produção que é diferente daquele que tem um ambiente natural.

IHU On-Line – Como compreender a crise alimentar do mundo, considerando a quantidade de alimentos produzidos? A raiz deste problema é econômica e política?

Adalberto Luis Val – É mais política do que econômica, e está fortemente relacionada ao processo educativo. Precisamos melhorar todo processo educativo no sentido de otimizar o uso dos produtos agrícolas de uma maneira geral. Se observarmos dentro da nossa própria casa, o volume de alimentos que desperdiçamos é muito grande. Talvez pudéssemos alimentar pelo menos mais um terço dos habitantes com os alimentos que desperdiçamos. Como eu disse, trata-se de uma questão cultural. Precisamos trabalhar essa questão ao longo do tempo, para que se possa ter uma postura diferenciada no futuro.

Com informações do IHU On-Line.

Atualidades – Sustentabilidade: Brasil recicla apenas 1,4% do lixo que produz

A quantidade de lixo não para de crescer nas cidades, que seguem despreparadas para lidar com o problema. Foto: Flickr/Blog do Milton Jung/Creative Commons.

O Brasil recicla apenas 1,4% de todo o lixo doméstico que produz e destina 0,8% dos resíduos orgânicos para a compostagem. A informação é da Associação Brasileira de Resíduos Sólidos e Limpeza Pública (ABLP). O conselheiro da ABLP, Eleusis Bruder di Creddo diz que os números não são satisfatórios, mas a falta de dados atualizados e precisos sobre o assunto no país é outro quadro preocupante. As informações mais recentes são da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, de 2008, e revelam, que o Brasil produz, por dia, 110 mil toneladas de lixo.

O volume leva em conta apenas a produção residencial, o que se transforma em montanhas de lixo nos aterros. Conforme Creddo, 58% do material vai para aterros sanitários que atendem às condições necessárias de armazenamento, mas 40% de todo o resíduo das casas brasileiras ainda termina em lixões, áreas de depósito inadequadas para o meio ambiente.

Na Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Suécia e nos Países Baixos o cenário é diferente. De acordo com um relatório emitido pela Comissão Europeia em agosto, estes países “dispõem de sistemas globais de recolhimento e depõem em aterro menos de 5% dos seus resíduos”.

Além disso, números do Centro de Dados Ambientais sobre Resíduos da Comissão Europeia apontam para uma redução no volume de lixo doméstico produzido por pessoa na Alemanha. Em 2004, cada habitante daquele país gerava 258 quilos de lixo por ano. Quatro anos depois, a média caiu para 196 quilos.

“O Brasil tem números muito ruins na questão da reciclagem e compostagem, infelizmente”, avalia Creddo. Por hora, o único dado positivo no tratamento de resíduos do Brasil vem das latinhas de alumínio: 96% do metal desta fonte é reutilizado. Já os números da ABLP não são tão animadores quanto a outros materiais: 24% do aço, 68% do papel e apenas 10 a 15% do plástico voltam à cadeia produtiva.

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O conselheiro da Associação avalia que o problema reside na falta de um sistema de logística reversa, em que as indústrias sejam responsáveis pela compra do resíduo para compensar o que produzem com as embalagens. “Um sistema em que o material reciclado tem um valor comercial e é reinserido na cadeia produtiva”, explica Creddo.

A situação deve melhorar a partir de 2014, quando entra em vigor no Brasil a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), aprovada em 2010, atualmente em fase de regulamentação. Ao menos é nisso que aposta a presidente do Instituto GEA, Ana Maria Domingues da Luz. A ONG promove a difusão de informação quanto ao gerenciamento de resíduos sólidos e atribui o baixo desempenho do país quanto à reciclagem à falta de estruturas públicas.

A presidente da entidade também lamenta que toneladas de matéria-prima sigam diariamente para o lixo. “Vai ficar lá, em aterros, até que haja a escassez de matéria-prima e a tecnologia necessária para resgatar esse material”, observa Ana Luz.

A lei precisa “pegar”
A lei 12.305, que instituiu a PNRS, oferece vantagens financeiras aos municípios que implantarem sistemas de coleta seletiva “com a participação de cooperativas ou outras formas de associação de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis, formadas por pessoas físicas de baixa renda”. E mais que isso: trata-se de um instrumento legal que obriga os moradores de todas as cidades que ofereçam o serviço a separar o lixo e a acondicioná-lo adequadamente para a coleta. “Falta a lei vigorar e ser uma lei que ‘pega’, porque no Brasil acontece de ter uma legislação que ninguém liga e ela passa a ser uma letra sem valor. Isso acontece, infelizmente”, lamenta Ana Luz.

Ações de curto prazo, na avaliação da ambientalista, dependem diretamente do cidadão. “A pessoa precisa se preocupar com isso, ela própria deve diminuir a produção de lixo mas, no momento em que gerou o resíduo, tem que descobrir uma forma de reciclar”, pondera.

Com informações da Carta Capital.