Avaliação: França debate a abolição das notas nas escolas

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França debate a abolição das notas nas escolas.

As notas estão com os dias contados nas escolas francesas. O Conselho Superior dos Programas, órgão do Ministério da Educação francês, elaborou uma proposta para abolir o sistema de avaliação através das notas, que na França vão de zero até 20, e substituí-las por uma análise mais geral das competências dos alunos. O projeto será discutido em uma conferência nacional nesta quinta e sexta-feira (11 e 12), em Paris.

Se o projeto for aprovado, caberá ao professor avaliar as capacidades de cada estudante através de conceitos e pareceres individuais. O docente utilizará critérios como o domínio da língua francesa, a capacidade de comunicação, formas e métodos de aprendizado, a postura dos estudantes como cidadãos, sua compreensão e observação do mundo, entre outros.

O objetivo, segundo o Conselho Superior dos Programas, é diminuir as desigualdades, a concorrência, a pressão e estimular os alunos a evoluir nas áreas onde encontram dificuldades. O próprio presidente francês, François Hollande, chegou a classificar o sistema de notas das escolas nacionais como “um castigo” e não como uma forma de avaliar a capacidade dos estudantes.

Para a presidente do Conselho de Avaliação do Sistema Escolar, Nathalie Mons, o sistema atual de avaliação não é justo. “Em algumas escolas, tirar uma nota 12, que está muito próxima da média, não é um bom resultado. Já em estabelecimentos mais exigentes, obter um 12 pode ser considerado ótimo. Ou seja, percebemos que ainda há muita desigualdade nas instituições de ensino”, considera.

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Atraso nas reformas
Sistemas similares sem as tradicionais notas já vêm sendo utilizados há muitos anos por países europeus onde a educação é considerada de alto nível, como Suécia, Dinamarca e Alemanha. Na França, se for aprovado, o novo sistema pode começar a ser testado em 2015.

Para Denis Adam, secretário nacional do setor de educação da União dos Sindicatos Autônomos franceses (Unsa) ainda há muita resistência para implementar reformas nas escolas francesas. “Temos um discurso paradoxal sobre isso. Os pais esperam que seus filhos sejam avaliados como quando eles eram estudantes, com a consciência do trauma que isso gerou neles quando recebiam notas ruins”, diz.

Nathalie Mons lembra que não é só a França que é inflexível a mudanças na educação. “Em todos os países que mudaram seu sistema de avaliação foi extremamente complicado realizar um debate na sociedade civil”, ressalta.

O motivo, segundo ela, é que para os pais, a vantagem das notas é que elas mostram objetivamente o desempenho de seus filhos. “Ou seja, se os resultados estão acima de 10, eles estão tranquilos, mas, se as notas estão abaixo da média, há algo de errado. Mas essa clareza é falsa”, garante.

Falta de esclarecimentos
O engenheiro português Pedro David é pai de dois meninos que estudam em escolas francesas. Ele reclama da falta de esclarecimentos sobre o funcionamento do sistema que pretende abolir as notas. “Ainda não entendi muito bem como eles querem aplicar essa reforma. Se for feita uma correspondência exata entre duas escalas de avaliação, não vai servir para nada. Além disso, não acredito que a sociedade francesa vá se adaptar facilmente a esse novo sistema”, confessa.

Nathalie Mons compreende a dificuldade dos pais em relação às mudanças. Para ela, é necessário que a comunicação sobre essas reformas na educação também seja aprimorada. “Se aplicarmos outros tipos de avaliação, é preciso que eles sejam facilmente interpretados pelas famílias. E que algo mais seja feito em termos de informação aos pais sobre a aprendizagem de seus filhos”, estima.

Com informações da RFI.

“Minha pátria é a língua portuguesa” (Fernando Pessoa)

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A língua portuguesa no mundo em dois minutos. 800 anos; 250 milhões de falantes e muitas histórias a contar.

Veja o vídeo: http://observador.pt/episodio/dois-minutos-para-conhecer-lingua-portuguesa-mundo/

Bernardo Soares* | Fernando Pessoa
Gosto de dizer.

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio…» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais – tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é – não – a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Fonte: http://arquivopessoa.net/textos/4520

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fp3*De Bernardo Soares disse Pessoa que era, não um heterónimo, mas um semi-heterónimo (ou “personalidade literária”, como também lhe chamou). Na já tão mencionada carta de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa justifica o porquê de não o considerar como os outros:

«O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as faculdades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual […]»

Ora, se Pessoa pouco nos diz desta sua “personalidade literária”, dele ficamos a conhecer, pela leitura do Livro, a condição de ajudante de guarda-livros, vivendo e trabalhando na Baixa lisboeta, contactando com o universo ‘cinzento’ da paisagem que o rodeia, a citadina e a humana, a dos cafés que frequenta, a do escritório da Rua dos Douradores, com o patrão Vasques, o Moreira ou o moço de fretes. Vivia num quarto alugado e conversava sobre literatura com Fernando Pessoa, tendo mostrado apreço pela revista Orpheu. Ter-lhe-ia confessado mesmo que, «não tendo para onde ir, nem amigos que visitasse, soia gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também». Da sua escrita resultaram os fragmentos (designá-los-ei por f.) do que viria a ser o Livro do Desassossego.

A atualidade da “Alegoria da Caverna” de Platão

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“Depois disto — prossegui eu — imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no gênero dos tapumes que os homens dos «robertos» [“exibidores de marionetas ou títeres”] colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles“. Livro VII da República (Πολιτεία) de Platão. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Calouste Gulbenkian, p. 315.

O “Mito da Caverna”, ou “Alegoria da Caverna”, foi escrito pelo filósofo Platão e está contido em “A República”, no livro VII. Os especialistas consideram um dos últimos textos escritos pelo filósofo, antes de sua morte em Atenas no ano de 348/347 a.C. Na alegoria narra-se o diálogo de Sócrates com Glauco e Adimato. É um dos textos mais lidos no mundo filosófico.

Com essa alegoria de redobrado interesse para a iniciação órfica do filósofo, Platão divide basicamente o mundo em duas realidades: a sensível, apercebida pelos sentidos, e a inteligível (o mundo das ideias). O primeiro é o mundo da “imperfeição” e o segundo encontraria toda a verdade possível para o homem. Assim, o filósofo deveria buscar o “mundo das ideias” para que consiga atingir o bem maior para sua vida.

De resto fica a certeza que a Filosofia é, antes de mais nada, é um convite permanente à reflexão.

Curiosidades: Os termos relativos a “caverna” geralmente utilizam a raiz espeleo-, derivada do latim spelaeum, originada do grego σπήλαιον, “caverna”, da mesma raiz da palavra “espelunca“.

E por falar dos «robertos» (que são tão espertos!)…