Edgar MORIN: A perda do futuro e a necessidade de identidade.

Toda uma parte do mundo ocidental vive o presente imediato. Mas, quando se faz política no presente imediato, quando não se pensa mais no futuro, não há mais perspectiva ou quando o presente é ruim e infeliz, o que resta?” – Edgar Morin

Edgar MORIN | A perda do futuro e a necessidade de identidade*

Existe um pouco, por todos os lugares, essa reivindicação de identidade que, certa ou errada, teme se afogar. Mas, existe um segundo elemento que explica tudo isso: é a perda do futuro. Por quê? Porque o mundo viveu com a ideia de que o progresso era uma lei histórica, ou seja, que amanhã seria melhor do que hoje. E, talvez, houvesse algumas perturbações, mas essa lei era certa.

Porém, a partir justamente dos anos de 1970, 1980, 1990 parece cada vez mais que o progresso não é certo de jeito nenhum, que os próprios motores do progresso são ambivalentes. Ou seja, que a ciência, que normalmente deve levar o progresso humano e que traz um grande progresso nos conhecimentos, traz também as armas de destruição massiva, que a técnica, ela mesma, produz essas armas de destruição massiva e não produz somente o “assujeitamento” das energias físicas, mas produz também o “assujeitamento” daqueles que trabalham nessas máquinas.

É que a economia, que tem aspectos de desenvolvimento e que traz bens é, ela própria, uma economia que não é controlada, que não é regulada. Ela própria passa por crises. E depois existe também, percebe-se que as guerras de religião que pareciam pertencer ao passado voltam na atualidade. Todos esses fatores parecem indicar que o progresso está minado – já que se acreditava que era a ciência, a razão, a técnica, a economia que iriam guiar a humanidade em direção ao progresso, mas percebe-se a profunda ambivalência desse guia.

A crise do futuro, a crise do progresso. A perda do futuro é muito grave porque, quando se perde a esperança no futuro surge uma sensação de angústia e de neurose. Dessa forma, a crise do futuro, lá onde há um mínimo de presente que pode ser vivido, provoca a retração do presente – é a vida no presente imediato. Toda uma parte do mundo ocidental vive o presente imediato. Mas, quando se faz política no presente imediato, quando não se pensa mais no futuro, não há mais perspectiva, ou então, quando o presente é ruim e infeliz, o que resta?

Então, essa crise de civilização, e não se vê solução, não se vê saída, não se vê remédio, ao contrário, ela continua crescendo, e, finalmente, essa crise é também a crise do planeta, porque o planeta, em todas as megalópoles, se ocidentalizou, seja em Xangai, em São Paulo ou outro lugar, é a crise da humanidade que não chega a nascer, crise da humanidade com a crise do progresso, incerteza do futuro, retorno das religiões.

Assim, eis como se pode situar a tragédia dessa época; e o futuro é desconhecido a partir de agora. Percebe-se, retrospectivamente, que a aventura da humanidade é uma aventura desconhecida.

*Excerto da conferência de Edgar Morin no Fronteiras do Pensamento, 1968-2008: o mundo que eu vi e vivi.

Assista a Edgar Morin No YouTube:
Para uma ética da humanidade
A crise da humanidade

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