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Discurso histórico do Papa Francisco aos Movimentos Populares reunidos na Bolívia, Santa Cruz em 9 de Julho de 2015.

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Versão integral do discurso histórico do Papa Francisco aos Movimentos Populares reunidos na Bolívia, Santa Cruz – Expo Feira, 9 de Julho de 2015.

Boa tarde a todos!
Há alguns meses, reunimo-nos em Roma e não esqueço aquele nosso primeiro encontro. Durante este tempo, trouxe-vos no meu coração e nas minhas orações. Alegra-me vê-vos de novo aqui, debatendo os melhores caminhos para superar as graves situações de injustiça que padecem os excluídos em todo o mundo. Obrigado Senhor Presidente Evo Morales, por sustentar tão decididamente este Encontro.

Então, em Roma, senti algo muito belo: fraternidade, paixão, entrega, sede de justiça. Hoje, em Santa Cruz de la Sierra, volto a sentir o mesmo. Obrigado! Soube também, pelo Pontifício Conselho «Justiça e Paz» presidido pelo Cardeal Turkson, que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos movimentos populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vós, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada diocese, em cada comissão «Justiça e Paz», uma colaboração real, permanente e comprometida com os movimentos populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais a aprofundar este encontro.

Deus permitiu que nos voltássemos a ver hoje. A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu quero voltar a unir a minha voz à vossa: terra, tecto e trabalho para todos os nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América Latina e em toda a terra.

1. Comecemos por reconhecer que precisamos duma mudança. Quero esclarecer, para que não haja mal-entendidos, que falo dos problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, de toda a humanidade. Problemas, que têm uma matriz global e que actualmente nenhum Estado pode resolver por si mesmo. Feito este esclarecimento, proponho que nos coloquemos estas perguntas:

– Reconhecemos nós que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem tecto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade?
– Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se apodera até dos nossos bairros? Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante?

Então digamo-lo sem medo: Precisamos e queremos uma mudança.
Nas vossas cartas e nos nossos encontros, relataram-me as múltiplas exclusões e injustiças que sofrem em cada actividade laboral, em cada bairro, em cada território. São tantas e tão variadas como muitas e diferentes são as formas próprias de as enfrentar. Mas há um elo invisível que une cada uma destas exclusões: conseguimos nós reconhecê-lo? É que não se trata de questões isoladas. Pergunto-me se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?

Se é assim – insisto – digamo-lo sem medo: Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos…. E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco.

Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença.

Hoje quero reflectir convosco sobre a mudança que queremos e precisamos. Como sabem, recentemente escrevi sobre os problemas da mudança climática. Mas, desta vez, quero falar duma mudança noutro sentido. Uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança – poderíamos dizer – redentora. Porque é dela que precisamos. Sei que buscais uma mudança e não apenas vós: nos diferentes encontros, nas várias viagens, verifiquei que há uma expectativa, uma busca forte, um anseio de mudança em todos os povos do mundo. Mesmo dentro da minoria cada vez mais reduzida que pensa sair beneficiada deste sistema, reina a insatisfação e sobretudo a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os liberte desta tristeza individualista que escraviza.

O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece exaurir-se; já não nos contentamos com lutar entre nós, mas chegamos até a assanhar-nos contra a nossa casa. Hoje, a comunidade científica aceita aquilo que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava «o esterco do diabo»: reina a ambição desenfreada de dinheiro. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioecónomico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum.

Não quero alongar-me na descrição dos efeitos malignos desta ditadura subtil: vós conhecei-los! Mas também não basta assinalar as causas estruturais do drama social e ambiental contemporâneo. Sofremos de um certo excesso de diagnóstico, que às vezes nos leva a um pessimismo charlatão ou a rejubilar com o negativo. Ao ver a crónica negra de cada dia, pensamos que não haja nada que se possa fazer para além de cuidar de nós mesmos e do pequeno círculo da família e dos amigos.

Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer? Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais? Que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas? Muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, tecto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!

2. Vós sois semeadores de mudança. Aqui, na Bolívia, ouvi uma frase de que gosto muito: «processo de mudança». A mudança concebida, não como algo que um dia chegará porque se impôs esta ou aquela opção política ou porque se estabeleceu esta ou aquela estrutura social. Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas, que não seja acompanhada por uma conversão sincera das atitudes e do coração, acaba a longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos. Cada um de nós é apenas uma parte de um todo complexo e diversificado interagindo no tempo: povos que lutam por uma afirmação, por um destino, por viver com dignidade, por «viver bem».

Vós, a partir dos movimentos populares, assumis as tarefas comuns motivados pelo amor fraterno, que se rebela contra a injustiça social. Quando olhamos o rosto dos que sofrem, o rosto do camponês ameaçado, do trabalhador excluído, do indígena oprimido, da família sem tecto, do imigrante perseguido, do jovem desempregado, da criança explorada, da mãe que perdeu o seu filho num tiroteio porque o bairro foi tomado pelo narcotráfico, do pai que perdeu a sua filha porque foi sujeita à escravidão; quando recordamos estes «rostos e nomes» estremecem-nos as entranhas diante de tanto sofrimento e comovemo-nos…. Porque «vimos e ouvimos», não a fria estatística, mas as feridas da humanidade dolorida, as nossas feridas, a nossa carne. Isto é muito diferente da teorização abstracta ou da indignação elegante. Isto comove-nos, move-nos e procuramos o outro para nos movermos juntos. Esta emoção feita acção comunitária é incompreensível apenas com a razão: tem um plus de sentido que só os povos entendem e que confere a sua mística particular aos verdadeiros movimentos populares.

Vós viveis, cada dia, imersos na crueza da tormenta humana. Falastes-me das vossas causas, partilhastes comigo as vossas lutas. E agradeço-vos. Queridos irmãos, muitas vezes trabalhais no insignificante, no que aparece ao vosso alcance, na realidade injusta que vos foi imposta e a que não vos resignais opondo uma resistência activa ao sistema idólatra que exclui, degrada e mata. Vi-vos trabalhar incansavelmente pela terra e a agricultura camponesa, pelos vossos territórios e comunidades, pela dignificação da economia popular, pela integração urbana das vossas favelas e agrupamentos, pela auto-construção de moradias e o desenvolvimento das infra-estruturas do bairro e em muitas actividades comunitárias que tendem à reafirmação de algo tão elementar e inegavelmente necessário como o direito aos “3 T”: terra, tecto e trabalho.

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Este apego ao bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia-a-dia, com as suas misérias e os seus heroísmos quotidianos, é o que permite realizar o mandamento do amor, não a partir de ideias ou conceitos, mas a partir do genuíno encontro entre pessoas, porque não se amam os conceitos nem as ideias; amam-se as pessoas. A entrega, a verdadeira entrega nasce do amor pelos homens e mulheres, crianças e idosos, vilarejos e comunidades… Rostos e nomes que enchem o coração. A partir destas sementes de esperança semeadas pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de ternura que lutam por subsistir na escuridão da exclusão, crescerão grandes árvores, surgirão bosques densos de esperança para oxigenar este mundo.

Vejo, com alegria, que trabalhais no que aparece ao vosso alcance, cuidando dos rebentos; mas, ao mesmo tempo, com uma perspectiva mais ampla, protegendo o arvoredo. Trabalhais numa perspectiva que não só aborda a realidade sectorial que cada um de vós representa e na qual felizmente está enraizada, mas procurais também resolver, na sua raiz, os problemas gerais de pobreza, desigualdade e exclusão.

Felicito-vos por isso. É imprescindível que, a par da reivindicação dos seus legítimos direitos, os povos e as suas organizações sociais construam uma alternativa humana à globalização exclusiva. Vós sois semeadores de mudança. Que Deus vos dê coragem, alegria, perseverança e paixão para continuar a semear. Podeis ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver os frutos. Peço aos dirigentes: sede criativos e nunca percais o apego às coisas próximas, porque o pai da mentira sabe usurpar palavras nobres, promover modas intelectuais e adoptar posições ideológicas, mas se construirdes sobre bases sólidas, sobre as necessidades reais e a experiência viva dos vossos irmãos, dos camponeses e indígenas, dos trabalhadores excluídos e famílias marginalizadas, de certeza não vos equivocareis.

A Igreja não pode nem deve ser alheia a este processo no anúncio do Evangelho. Muitos sacerdotes e agentes pastorais realizam uma tarefa imensa acompanhando e promovendo os excluídos em todo o mundo, ao lado de cooperativas, dando impulso a empreendimentos, construindo casas, trabalhando abnegadamente nas áreas da saúde, desporto e educação. Estou convencido de que a cooperação amistosa com os movimentos populares pode robustecer estes esforços e fortalecer os processos de mudança.

No coração, tenhamos sempre a Virgem Maria, uma jovem humilde duma pequena aldeia perdida na periferia dum grande império, uma mãe sem tecto que soube transformar um curral de animais na casa de Jesus com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Maria é sinal de esperança para os povos que sofrem dores de parto até que brote a justiça. Rezo à Virgem do Carmo, padroeira da Bolívia, para fazer com que este nosso Encontro seja fermento de mudança.

3. Por último, gostaria que reflectíssemos, juntos, sobre algumas tarefas importantes neste momento histórico, pois queremos uma mudança positiva em benefício de todos os nossos irmãos e irmãs. Disto estamos certos! Queremos uma mudança que se enriqueça com o trabalho conjunto de governos, movimentos populares e outras forças sociais. Sabemos isto também! Mas não é tão fácil definir o conteúdo da mudança, ou seja, o programa social que reflicta este projecto de fraternidade e justiça que esperamos. Neste sentido, não esperem uma receita deste Papa. Nem o Papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social e da proposta de soluções para os problemas contemporâneos. Atrever-me-ia a dizer que não existe uma receita. A história é construída pelas gerações que se vão sucedendo no horizonte de povos que avançam individuando o próprio caminho e respeitando os valores que Deus colocou no coração.

Gostaria, no entanto, de vos propor três grandes tarefas que requerem a decisiva contribuição do conjunto dos movimentos populares:

3.1 A primeira tarefa é pôr a economia ao serviço dos povos.
Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.

A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Isto implica cuidar zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. A sua finalidade não é unicamente garantir o alimento ou um «decoroso sustento». Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos “3 T” pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, «prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos».[1] Isto envolve os “3 T” mas também acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recreação. Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de actividade e ter acesso a uma digna aposentação na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social. Vós – e outros povos também – resumis este anseio duma maneira simples e bela: «viver bem».

Esta economia é não apenas desejável e necessária, mas também possível. Não é uma utopia, nem uma fantasia. É uma perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos disponíveis no mundo, fruto do trabalho intergeneracional dos povos e dos dons da criação, são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de «todos os homens e do homem todo».[2] Mas o problema é outro. Existe um sistema com outros objectivos. Um sistema que, apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, apesar de implementar métodos na indústria e na agricultura que sacrificam a Mãe Terra na ara da «produtividade», continua a negar a milhares de milhões de irmãos os mais elementares direitos económicos, sociais e culturais. Este sistema atenta contra o projecto de Jesus.

A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e às pessoas o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno retórico da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, sobretudo quando afecta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades das pessoas. E estas necessidades não se limitam ao consumo. Não basta deixar cair algumas gotas, quando os pobres agitam este copo que, por si só, nunca derrama. Os planos de assistência que acodem a certas emergências deveriam ser pensados apenas como respostas transitórias. Nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: a inclusão que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário.

Neste caminho, os movimentos populares têm um papel essencial, não apenas exigindo e reclamando, mas fundamentalmente criando. Vós sois poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global.

Conheci de perto várias experiências, onde os trabalhadores, unidos em cooperativas e outras formas de organização comunitária, conseguiram criar trabalho onde só havia sobras da economia idólatra. As empresas recuperadas, as feiras francas e as cooperativas de catadores de papelão são exemplos desta economia popular que surge da exclusão e que pouco a pouco, com esforço e paciência, adopta formas solidárias que a dignificam. Quão diferente é isto do facto de os descartados pelo mercado formal serem explorados como escravos!

Os governos que assumem como própria a tarefa de colocar a economia ao serviço das pessoas devem promover o fortalecimento, melhoria, coordenação e expansão destas formas de economia popular e produção comunitária. Isto implica melhorar os processos de trabalho, prover de adequadas infra-estruturas e garantir plenos direitos aos trabalhadores deste sector alternativo. Quando Estado e organizações sociais assumem, juntos, a missão dos “3 T”, activam-se os princípios de solidariedade e subsidiariedade que permitem construir o bem comum numa democracia plena e participativa.

3.2 A segunda tarefa é unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça.
Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Querem caminhar em paz para a justiça. Não querem tutelas nem interferências, onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que a sua cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradições religiosas sejam respeitados. Nenhum poder efectivamente constituído tem direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afectam seriamente as possibilidades de paz e justiça, porque «a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito à independência».[3]

Os povos da América Latina alcançaram, com um parto doloroso, a sua independência política e, desde então, viveram já quase dois séculos duma história dramática e cheia de contradições procurando conquistar uma independência plena.

Nos últimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os governos da região juntaram seus esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país e a da região como um todo que, de forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a «Pátria Grande». Peço-vos, irmãos e irmãs dos movimentos populares, que cuidem e façam crescer esta unidade. É necessário manter a unidade contra toda a tentativa de divisão, para que a região cresça em paz e justiça.

Apesar destes avanços, ainda subsistem factores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e coarctam a soberania dos países da «Pátria Grande» e doutras latitudes do Planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anónimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados «de livre comércio» e a imposição de medidas de «austeridade» que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres. Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no documento de Aparecida, quando afirmam que «as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações».[4] Noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo – graves males dos nossos tempos que requerem uma acção internacional coordenada – vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores.

Da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de comunicação social que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural é outra das formas que adopta o novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-se converter os países pobres em «peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante».[5]

Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interacção dos Estados e dos povos a nível internacional. Qualquer acto de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos económicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode actuar à margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interacção não é sinónimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros. O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos… precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. Isto é desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz de deter.

Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz.

Aqui quero deter-me num tema importante. É que alguém poderá, com direito, dizer: «Quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas acções da Igreja». Com pesar, vo-lo digo: Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirmá-lo eu também. Como São João Paulo II, peço que a Igreja «se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos».[6] E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América.

Peço-vos também a todos, crentes e não crentes, que se recordem de tantos bispos, sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a boa nova de Jesus com coragem e mansidão, respeito e em paz; que, na sua passagem por esta vida, deixaram impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas vezes ao lado dos povos indígenas ou acompanhando os próprios movimentos populares mesmo até ao martírio. A Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que alguns poderes, tanto aqui como noutros países, se empenham por apagar, talvez porque a nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro. Hoje vemos, com horror, como no Médio Oriente e noutros lugares do mundo se persegue, tortura, assassina a muitos irmãos nossos pela sua fé em Jesus. Isto também devemos denunciá-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar.

Aos irmãos e irmãs do movimento indígena latino-americano, deixem-me expressar a minha mais profunda estima e felicitá-los por procurarem a conjugação dos seus povos e culturas segundo uma forma de convivência, a que eu chamo poliédrica, onde as partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que não atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A sua procura desta interculturalidade que conjuga a reafirmação dos direitos dos povos nativos com o respeito à integridade territorial dos Estados enriquece-nos e fortalece-nos a todos.

3.3 A terceira tarefa, e talvez a mais importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra.
A casa comum de todos nós está a ser saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos, com crescente decepção, sucederem-se uma após outra cimeiras internacionais sem qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de actuar que não está a ser cumprido. Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a criação. Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir – pacífica mas tenazmente – a adopção urgente de medidas apropriadas. Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra. Sobre este assunto, expressei-me devidamente na carta encíclica Laudato si’.

4. Para concluir, quero dizer-lhes novamente: O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco. Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem tecto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra. Rezo por vós, rezo convosco e quero pedir a nosso Pai Deus que vos acompanhe e abençoe, que vos cumule do seu amor e defenda no caminho concedendo-vos, em abundância, aquela força que nos mantém de pé: esta força é a esperança, a esperança que não decepciona. Obrigado! E peço-vos, por favor, que rezeis por mim.

[1] JOÃO XXIII, Carta enc. Mater et Magistra (15 de Maio de 1961), 3: AAS 53 (1961), 402.
[2] PAULO VI, Carta enc. Popolorum progressio, 14.
[3] PONTIFÍCIO CONSELHO «JUSTIÇA E PAZ», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 157.
[4] V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE (2007), Documento de Aparecida, 66.
[5] JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Ecclesia in Africa (14 de Setembro de 1995), 52: AAS 88 (1996), 32-33. Cf. IDEM, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 22: AAS 80 (1988), 539.
[6] JOÃO PAULO II, Bula Incarnationis mysterium, 11.

Com informações da Rádio Vaticana (versão em português de Portugal).

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Žižek: Um novo começo para a Europa?

Publicado originalmente em Blog da Boitempo:

Zizek TsiprasPorSlavoj Žižek.

O “NÃO” inesperadamente forte do referendo grego marcou uma resolução histórica, lançada em uma situação de desespero. Em minha obra, frequentemente me valho da conhecida piada soviética da década passada sobre Rabinovitch, um judeu que quer emigrar. O burocrata do departamento de emigração pergunta o motivo, e ele responde: “Bem, há dois motivos. O primeiro é que temo que os comunistas percam o poder aqui na União Soviética, e que consequentemente o novo governo venha a colocar sobre nós, judeus, toda a culpa pelos crimes dos comunistas – inaugurando uma nova leva de pogroms anti-semitas…” “Mas que bobagem”, interrompe o burocrata, “nada vai mudar na União Soviética. O poder dos comunistas durará para sempre!” “Pois então, esse é o meu segundo motivo”, responde Rabinovitch tranquilamente.

Me disseram que uma nova versão dessa piada está agora circulando em Atenas. Um jovem grego visita o consulado australiano na capital grega e solicita…

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Brasil: Professor estadual com licenciatura ganha em média R$ 16,95 por hora

Os professores das redes estaduais e do Distrito Federal ganham R$ 16,95 a cada 60 minutos que passam dentro da sala de aula com os estudantes, ou fora dela preparando atividades, provas e relatórios.

O valor médio da hora nacional faz parte de um levantamento feito pelas equipes de reportagem do G1 em todo o país, junto aos governos estaduais e sindicatos, entre abril e junho deste ano.

Considerando a carga horária de 40 horas semanais de trabalho, o salário-base médio é de R$ 2.711,48 para professores com diploma de licenciatura no início da carreira.

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O levantamento tomou como base essa categoria de docência porque as redes estaduais são as principais responsáveis pelo ensino médio, nível em que, para lecionar, é preciso concluir o curso de licenciatura.

Em média, o professor da rede pública estadual formado em licenciatura (ou seja, com diploma do ensino superior), recebe 57% do salário mediano dos trabalhadores brasileiros com formação equivalente. Segundo uma comparação feita pelo Cadastro Central de Empresas (Cempre) com base em dados de 2013, e divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na semana passada, o salário médio de trabalhadores com diploma de nível superior foi de R$ 4.726,21.

Gratificações
Em entrevista ao G1, o ministro da Educação Renato Janine Ribeiro questionou o levantamento. Segundo ele, os dados levam em conta apenas os salários-base e exclui as gratificações, um método que ele classificou como “histórico” e composição salarial dos professores. “Ao longo do tempo os estados foram adotando formas diferentes de assalariar, e muitas vezes foi uma forma de dar aumento de verdade [para o professor]”, afirmou o ministro.

“São formas para ir compondo um salário. Você adota formas diferentes, mas chega uma hora em que há muita inconsistência, então é difícil fazer uma tabela de comparação. [Se um professor recebe gratificação por atuar em sala de aula, mas depois vai para outro setor], criam-se outros modos de não perder a gratificação, vão ganhando complexidade muito grande”, explicou.

Maior salário
O estado que paga o maior salário, segundo o levantamento, é Mato Grosso do Sul. Lá, os professores com licenciatura recebem o salário-base de R$ 3.994,25 pelas 40 horas semanais, jornada padrão, de acordo com informações do governo estadual.

No outro extremo da tabela, o estado com o menor salário-base é Santa Catarina. Segundo o governo catarinense, os professores com licenciatura que trabalham 40 horas por semana ganham salário-base de R$ 1.917,78, mesmo valor do piso nacional, obrigatório por lei para os professores com formação mínima de nível médio.

Fórum vai acompanhar salários
Em entrevista ao G1, Binho Marques, secretário de Articulação com os Sistemas de Ensino do MEC, afirmou que o ministério vai criar um fórum com a participação do governo, sindicatos e gestores estaduais e municipais para acompanhar e propor melhorias à lei que define o piso salarial nacional para os professores.

Ele afirmou ainda que a variação salarial entre os estados mostra a diversidade de planos de carreira locais. “É muito difícil fazer essa comparação, porque acaba sendo um pouco injusta. Tem estado que investe muito com salário do professor, mas o piso é baixo”, disse ele.

Segundo Marques, há estados que “achataram” a carreira e, por isso, o salário inicial é alto, mas o teto salarial da carreira não é muito superior ao piso. Outras redes, porém, têm um plano de carreira com muitos degraus, o que faz com que o salário inicial seja baixo, mas o professor tenha mais oportunidades de subir na carreira.

Santa Catarina
A Secretaria de Educação de Santa Catarina, que, de acordo com o levantamento, é a única rede estadual a pagar aos professores licenciados o piso salarial dos professores de nível médio, afirma que outros estados já incorporaram a chamada “regência de classe”, por isso o valor é maior.

Segundo a pasta, o governo negocia o salário com o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina (Sinte-SC). De acordo com a Secretaria, o valor de R$ 1,9 mil é “irreal” como salário-base, pois os professores recebem gratificações e o salário sobe para quase R$ 2,4 mil.

O levantamento considera apenas o vencimento inicial, excluindo as gratificações, que podem chegar a mais de 100% do valor do salário-base. É o caso do Maranhão, onde 100% dos professores em sala de aula recebem a Gratificação de Atividade do Magistério (GAM), no valor de 104% do salário-base. Assim, a folha de pagamento dos docentes maranhenses sobre para pelo menos R$ 4.985,44.

Jornada padrão e gratificação
Como cada estado tem autonomia para definir que tipo de contrato firma com os servidores da educação, as jornadas de trabalho variam entre 16 e 40 horas semanais.

Para poder comparar a remuneração entre os estados, o G1 converteu os salários-base referentes às jornadas reais para o equivalente à jornada de 40 horas.

Em alguns estados, o salário bruto dos professores é mais alto, porque o governo incorpora gratificações e subsídios, como auxílio-saúde, vale-transporte, vale-refeição e remuneração extra pela atuação em sala de aula, ou para professores que trabalham em áreas distantes ou consideradas de risco.

Há estados, porém, que não oferecem remuneração extra. Mato Grosso do Sul e Minas Gerais estão neste grupo, além de Espírito Santo, Goiás e Tocantins. Outros estados não informaram se oferecem ou não gratificação: Amazonas, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte e São Paulo.

No Paraná, por exemplo, a secretaria detalhe que professores recebem a remuneração mensal de R$ 3.194,70, incluindo benefícios e gratificações, e alega que o salário médio com benefícios é de R$ 4,721,48.

Lei de 2008
A lei que estabelece o piso salarial nacional para professores é de 2008 e determina diversas obrigações municípios, estados e à União.

piso

Além de dever pagar pelo menos o valor fixado por lei para professores com formação de nível médio e jornada de 40 horas semanais, os governos devem ajustar o salário para outras jornadas de trabalho segundo o piso.

Ainda de acordo com a lei, na jornada total, pelo menos um terço das horas trabalhadas pelos professores devem ser fora da sala de aula (a chamada “hora-atividade”).

Em alguns estados, porém, o cargo de professor com diploma de ensino médio já foi extinto, e só são contratados docentes que tenham formação de ensino superior. É o caso, por exemplo, do Amazonas e do Espírito Santo. Em outros estados, como no Ceará, há apenas algumas dezenas de professores nessas condições, e eles já não atuam mais em sala de aula.

Veja a seguir o salário-base dos professores (com diploma de licenciatura e jornada de 40 horas semanais) em cada rede estadual do Brasil:

ACRE*
Remuneração por hora: R$ 16,76
Salário-base mensal: R$ 2.681,27

ALAGOAS
Hora-aula: R$ 16,57
Salário-base mensal: R$ 2.651,82

AMAPÁ
Remuneração por hora: R$ 21,35
Salário-base mensal: R$ 3.416,32

AMAZONAS
Remuneração por hora: R$ 20,43
Salário-base mensal: R$ 3.269,49

BAHIA*
Remuneração por hora: R$ 12,04
Salário-base mensal: R$ 1.925,96

CEARÁ
Remuneração por hora: R$ 12,05
Salário-base mensal: R$ 1.927,43

DISTRITO FEDERAL
Remuneração por hora: R$ 24,12
Salário-base mensal: R$ 3.858,87

ESPÍRITO SANTO*
Remuneração por hora: R$ 19,83
Salário-base mensal: R$ 3.172,08

GOIÁS
Remuneração por hora: R$ 16,06
Salário-base mensal: R$ 2.570,08

MARANHÃO*
Remuneração por hora: R$ 15,27
Salário-base mensal: R$ 2.443,84

MATO GROSSO*
Remuneração por hora: R$ 23,76
Salário-base mensal: R$ 3.802,09

MATO GROSSO DO SUL
Remuneração por hora: R$ 24,96
Salário-base mensal: R$ 3.994,25

MINAS GERAIS*
Remuneração por hora: R$ 15,16
Salário-base mensal: R$ 2.425,50

PARÁ
Remuneração por hora: R$ 12,05
Salário-base mensal: R$ 1.927,60

PARAÍBA*
Remuneração por hora: R$ 13,30
Salário-base mensal: R$ 2.128,51

PARANÁ
Remuneração por hora: R$ 15,46
Salário-base mensal: R$ 2.473,22

PERNAMBUCO
Remuneração por hora: R$ 12,73
Salário-base mensal: R$ 2.036,16

PIAUÍ
Remuneração por hora: R$ 16,47
Salário-base mensal: R$ 2.634,65

RIO DE JANEIRO*
Remuneração por hora: R$ 18,43
Salário-base mensal: R$ 2.948,38

RIO GRANDE DO NORTE
Remuneração por hora: R$ 16,78
Salário-base mensal: R$ 2.684,43

RIO GRANDE DO SUL*
Remuneração por hora: R$ 14,57
Salário-base mensal: R$ 2.331,38

RONDÔNIA
Remuneração por hora: R$ 15,61
Salário-base mensal: R$ 2.498,00

RORAIMA*
Remuneração por hora: R$ 22,18
Salário-base mensal: R$ 3.548,93

SANTA CATARINA
Remuneração por hora: R$ 11,99
Salário-base mensal: R$ 1.917,78

SÃO PAULO
Remuneração por hora: R$ 15,10
Salário-base mensal: R$ 2.415,89

SERGIPE
Remuneração por hora: R$ 12,15
Salário-base mensal: R$ 1.943,53

TOCANTINS
Remuneração por hora: R$ 22,39
Salário-base mensal: R$ 3.582,62

*Nesses estados, a jornada padrão varia, mas, para efeito de comparação, o valor do salário-base foi convertido para 40 horas semanais:
– Jornada de 16 horas: Rio de Janeiro
– Jornada de 20 horas: Bahia, Maranhão e Rio Grande do Sul
– Jornada de 24 horas: Minas Gerais
– Jornada de 25 horas: Espírito Santo e Roraima
– Jornada de 30 horas: Acre, Mato Grosso, Paraíba, Rio Grande do Norte

Com informações do G1.

vasconcellos

Ricardo Semler: “Tortura escolar nunca mais!”

dia-mundial-da-educação

Se eu fosse estudante hoje faria milhares de bótons com a hashtag #chegadetortura para ostentar na sala de aula. Hoje, terça-feira (28/4), é o Dia Mundial da Educação, e cá estamos nós tentando melhorar a gestão – reciclagem e firulas– de um sistema medieval.

Paremos de culpar professores, acusando-os de corporativistas e letárgicos. Cessemos o giro da engrenagem da tortura que mói os alunos, vítimas da ditadura das aulas maçantes. O conceito da escola atual caducou. Fim. Os pais não saberiam hoje achar uma raiz quadrada, e são incapazes de dizer qual a capital da Holanda ou da Suíça. Tentem. Ou, então, citem dois escritores românticos brasileiros, diferenciem um sujeito oculto de um indeterminado ou mesmo lembrem de dois elementos seguidos da tabela periódica.

A escola que temos é resultado da ideia iluminista de que tudo precisa ficar guardado na cabeça. Na era do Google, é um crime insistir no método da decoreba. Argumenta-se que a meninada está aprendendo a aprender. Que balela: quem tem filho sabe que eles aprendem a andar e até a falar sem ajuda –já chegam de fábrica com a capacidade de aprender a aprender.

Os pais não têm coragem de confrontar a escola. Nas reuniões discutem a inclusão de alimentos orgânicos na merenda e a fila na saída do colégio. E se eximem: fiz o que pude, minha filha cursou uma boa escola, agora seja o que Deus quiser.

O tal mercado de trabalho, então, é um algoz de pijama. Ou alguém acredita que passar por uma escola rigorosa, usar uniforme e decorar a tabuada prepara alguém para trabalhar nos Instagrams da vida? Queremos preparar nossos filhos para trabalhar na General Motors de 1952?

Indignado e frustrado, comecei o Instituto Lumiar, que é administrado pela Fernanda, minha mulher. Por lá passaram os nossos cinco pequenos. A meta era redesenhar com pessoas do ramo uma escola contemporânea. Foi fácil criar e adotar escolas, inclusive uma pública, que conseguem notas muito mais altas do que conseguiam antes.

Ideias novas de educação envolvem mistura de faixas etárias e crianças que escolhem a ordem do que querem aprender. Incluem momentos diários em que os educandos olham as notícias e escolhem algo para investigar. Além de aplicativos que medem diariamente e por anos o domínio de cada aluno sobre as várias áreas do conhecimento.

Esse monitoramento digital dá baixa nos itens dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação, que são muito mais modernos e flexíveis do que o aplicado pelas escolas. Estas acham mais fácil seguir o método centenário: os alunos fazem de conta que entenderam, a escola finge que ensinou, e os pais fingem que acreditam.

Há alguns anos falei em um simpósio para 59 ministros de Educação. Conversando com o finlandês que desenhava o currículo deles, descobrimos que éramos partidários do fim das disciplinas estanques, um sistema esquizofrênico. No mês passado, a Finlândia anunciou que vai eliminar as disciplinas como matemática e línguas, e trocá-las por tópicos de interesse.

A Finlândia vem caindo no ranking do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), cedendo lugar para as ditaduras escolares. Os países que sobem a cada ano são os que têm as escolas mais rígidas, horários mais longos e o suplício das provas reducionistas.

Por aqui, o defeituoso Pisa virou estrela guia. Vale perguntar: queremos subir no ranking de maneira truculenta e primitiva ou acompanhar a Finlândia em modernidade intelectual? O fato de estarmos tão mal colocados não justifica focarmos no básico, do jeito antigo e inútil. É hora de desenharmos escolas que resgatem a magia do conhecimento.

Vamos nos irmanar com a Finlândia. Seria muito mais eficaz saltarmos por cima de métodos arcaicos do que fazermos mudanças marginais numa metodologia obsoleta. Pois é o que estamos fazendo: disfarçando tortura usando capuz de rigor pedagógico. Deixemos os saudosos da ditadura sozinhos na chuva no meio da avenida Paulista.

..::::…
RICARDO SEMLER, 55, empresário, é sócio da Semco Partners e fundador do Instituto Lumiar, que administra as escolas Lumiar. Foi professor visitante da Harvard Law School e professor do MBA no MIT Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA). Texto publicado originalmente no dia 28 de Abril de 2015 no Jornal Folha de São Paulo.

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MEC trabalha na criação de uma carreira nacional dos professores da EDUCAÇÃO BÁSICA

O ministro da Educação do Brasil, o filósofo Renato Janine Ribeiro afirmou que pretende trabalhar na criação de uma carreira nacional dos professores da educação básica.

A educação básica, que vai da creche até o ensino médio, será prioridade do Ministério da Educação (MEC), no que diz respeito à preservação de recursos, afirmou o novo ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, que assumiu o cargo no dia 6/4. “Todos os ministros dizem que o foco principal é a educação básica. Com certeza é, e com certeza tem que ser, e isso é mais ou menos óbvio: as crianças são as mais vulneráveis”, disse ele, em entrevista coletiva, logo após receber do ministro interino, Luiz Cláudio Costa, o comando da pasta.

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Filósofo Renato Janine Ribeiro será o novo ministro da Educação no Brasil

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Renato Janine RIBEIRO (Araçatuba, São Paulo, 1949) é um professor de filosofia brasileiro. Atualmente é professor-titular da cadeira de Ética e Filosofia Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Recebeu o Prêmio Jabuti em 2001, bem como foi condecorado com a Ordem Nacional do Mérito Científico, em 1998, e com a Ordem de Rio Branco, em 2009.

A presidenta da República Dilma Rousseff convidou, nesta sexta-feira (27/3), o professor doutor Renato Janine Ribeiro para assumir o cargo de ministro da Educação, segundo nota divulgada pela Secretaria de Imprensa da Presidência da República (veja aqui).

A posse do novo ministro será no dia 6 de abril.

Renato Janine RIBEIRO é um filósofo brasileiro conhecido sobretudo por seus trabalhos sobre o pensador inglês Thomas HOBBES, acerca da cultura política nas “sociedades ocidentais dissidentes” (entre as quais inclui o Brasil e a América Latina) e por sua participação no debate político brasileiro.

Desde 1993, é professor titular de Ética e Filosofia Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH), onde começou a lecionar em 1975, tendo-se porém afastado do exercício deste cargo em 2004 para assumir a Diretoria de Avaliação da Capes, órgão legalmente incumbido da avaliação e eventual fechamento dos programas de pós-graduação existentes no Brasil, que exerceu até outubro de 2008.

Concluiu o curso universitário de filosofia na USP; depois, fez mestrado na Université de Paris I Pantheon-Sorbonne em 1973. Mais tarde, já de volta ao Brasil, concluiu o seu doutorado pela Universidade de São Paulo (USP). Iniciou-se academicamente trabalhando em cima do pensamento de Thomas HOBBES, e depois abrangeu seus temas, interessando-se por filosofia política.

Veja abaixo, uma recente entrevista do filósofo na Revista Brasileiros onde ele reflete vários aspectos do contexto político. Entre vários temas, ele ressalta que os avanços sociais do governo federal se deram apenas pelo consumo, critica a falta de diálogo da presidenta Dilma Rousseff, o projeto policialesco da oposição, a onipresença do Judiciário e muito mais.

[…]

Renato Janine Ribeiro é um filósofo em sintonia com o seu tempo. Professor titular de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo, ele começou a carreira em meados dos anos 1970, estudando o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679). Não demorou a voltar-se para a reflexão e o debate sobre temas da sociedade atual, o que agora faz em diferentes cenários – da academia às redes sociais. Sem negar os avanços sociais registrados nos últimos 12 anos no Brasil, o filósofo lamenta que eles tenham se dado pela via do consumo: “O grande flagelo ético do Brasil é a miséria. Se o PT batesse nessa tecla o tempo todo e dissesse que está combatendo o problema, teria uma imagem ética que poderia sobrepor à discussão de corrupção”.

Em um momento conturbado da política nacional, Janine Ribeiro critica o isolamento da presidenta Dilma Rousseff, o excesso de protagonismo do Judiciário e a postura da oposição: “Há toda uma crônica policial que favorece o PSDB, assim como uma mídia que é simpática aos tucanos e detesta o PT. Isso leva o PSDB a ter um projeto mais policial do que político”. Para o filósofo, a proposta de impeachment só interessa à oposição “e, talvez, a uma parte da mídia”. Seja como for, na sua opinião, o melhor seria Dilma Rousseff terminar o mandato em condições razoáveis: “Qualquer outra coisa, seria dramático”.

Brasileiros – Como o senhor está vendo o momento político?

Renato Janine Ribeiro – Com muita preocupação. As eleições são recentes e pelo menos quatro chefes do poder Executivo estão com problemas sérios. A presidente da República e os governadores de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul têm problema parecido, o descompasso entre o que prometeram e o que estão fazendo. Em São Paulo, a questão é a falta d’água. Alckmin alegou que não faltaria. No Paraná, o caso é mais acentuado, porque o governador realmente entrou em choque com os professores. Organizei inclusive um abaixo-assinado em apoio às universidades estaduais.

Que mudanças o governador Beto Richa está fazendo?

Ele simplesmente cortou o dinheiro. Cortou a transferência de verbas de custeio para algumas das principais universidades do Estado, como a de Londrina. No geral, foram várias medidas. O fato é que, no Paraná, o orçamento não está fechando. De alguma forma, em algum lugar, vai ter de cortar.

E ele acaba de ser reeleito.

Assim como Dilma e Alckmin. São três casos de governantes reeleitos que faltaram com o que prometeram. No Rio Grande do Sul é um pouco diferente, porque o governador José Ivo Sartori é mais um personagem folclórico, que se elegeu em um vazio político. A promessa implícita era de honestidade, mas ele está demonstrando falta de cuidado no gasto público. Um exemplo foi o uso de helicóptero para fazer um passeio. Enfim, são quatro lugares com problema. E o problema se torna candente no Paraná e na esfera federal.

Em São Paulo, a impressão que se tem é que nada pega em Alckmin, como se a crise hídrica fosse descolada da figura do governador.

Isso e os maus indicadores na Educação, na Saúde, em tudo mais. Nada basta para que os paulistas enjoem de um partido que não cumpriu o que prometeu. O PSDB sempre prometeu competência, qualidade de gestão. E depois de 20 anos seguidos de gestão em São Paulo deu esse problema.

Tem uma explicação para isso?

É difícil estabelecer, fora o fato de o Estado de São Paulo ter se tornado muito fortemente antipetista. Nesse sentido, qualquer crítica que tiver cheiro de esquerda é desqualificada. Não pega por uma questão ideológica, contrária ao PT. Qualquer sugestão na direção do PT não é sequer escutada por uma boa parte da população.

Esse fenômeno não ocorre em todo o Brasil? Não há um fortalecimento da direita?

Há o fortalecimento da direita, mas não é igual. No Nordeste, a partir da Bahia, não é assim. No próprio Estado de Minas, que elegeu um governador do PT, não é assim. Esse fenômeno está concentrado sobretudo em São Paulo, no Paraná, em alguns Estados que deram vitória muito clara a Aécio Neves. Não é um fenômeno nacional, embora seja verdade que, mesmo nos Estados em que o PT teve maior votação, uma parte significativa do empresariado é contra o PT.

Como é esse avanço?

A direita tem avançado em boa parte por causa da pouca disposição da esquerda em fazer o enfrentamento de ideias. E isso não se faz postando no Facebook fotos de Hugo Chávez de manhã à noite. A pessoa tem de conquistar quem discorda dela ou está indeciso. Não tem de ficar reforçando a própria turma. Hoje, na política brasileira, tucano fala para tucano, petista fala para petista. Ninguém convence ninguém. Com isso, se destrói um dos elementos básicos da política, que é a persuasão.

O movimento a favor de um impeachment está crescendo de forma perigosa?

O único lugar que as pessoas saíram à rua, em massa, protestando, pressionando, foi o Paraná, contra o governador. Lá, um Estado muito conservador, os professores tiveram, inclusive, a iniciativa de irem à casa dos deputados que eles elegeram e que apoiam Richa para cobrar deles uma posição. O caso federal é bem diferente, porque não tem uma mobilização nas ruas comparada à do Paraná. Pelo menos, não por enquanto. E o segundo ponto é que, a presidenta ou presidente, como quiser, Dilma não deu satisfação a ninguém.

Esse é um problema.

Esse é o grande problema. Porque Richa e os seus, de alguma forma, estão falando. Não convencem, mas estão falando. Agora, no plano federal, o PT não está dando nenhuma satisfação.

É um problema de comunicação ou é deliberado?

Deliberado não é, mas não é apenas uma questão técnica. Assessor ruim eles têm. Isso é óbvio. Só um maluco cumprimentaria a Beija-Flor no perfil oficial da Dilma, como foi feito. Falasse sobre o Carnaval da Bahia, falasse de Norte a Sul. É muito simples. Bastava ter alguma inteligência.

A escola com patrocínio da ditadura de Guiné Equatorial.

Na verdade, é uma concepção de governo que não precisa prestar contas à sociedade. É isso que a Dilma está mostrando. Uma concepção de governo muito inquietante, porque é, no limite, autoritária. Adota as medidas que precisam ser adotadas, mas não explica. E não explica por que prometeu fazer uma coisa e está fazendo o contrário.

É o que aconteceu na reorientação da política econômica?

Isso. Os cortes nos programas sociais também poderiam ter sido explicados. A questão do defeso, da compensação para o pescador no período em que ele não pode trabalhar. Poderia ter explicado que o defeso é alvo de muita fraude. Poderia ter colocado isso mais a público. Não colocou. Não há nenhuma satisfação sendo dada. E os ministros continuam tendo as orelhas puxadas cada vez que falam uma coisa de que ela não gosta. Não há autonomia dos ministros.

De nenhum deles?

Os ministros com mais autonomia são o Joaquim Levy e o Juca Ferreira. O primeiro justamente por ser quase uma intervenção tucana na economia, um símbolo do descumprimento da promessa de campanha. O segundo está em uma pasta para mim fundamental, mas não para o governo, que é o Ministério da Cultura. Mas Juca Ferreira tem força no meio cultural que dá a ele grande autonomia. Como ele maneja um orçamento pequeno, comparado com o resto, provavelmente não vai levar puxão de orelha. Os outros ministros correm o risco de terem a orelha puxada o tempo todo. O que torna difícil para eles irem a público. Vão defender o quê? De repente, muda tudo. Defendem o governo e recebem uma correção de cima.

Ao mesmo tempo, o PMDB parece estar cada vez mais forte, independente, até mesmo chantageando. O vice-presidente Michel Temer já avisou que não tem controle sobre o partido.

São várias coisas. Se Dilma conversasse com Temer e Lula, ela certamente teria mais apoio. A sensação é que a presidente se isolou muito, que ela não conversa com gente de peso. Temer tem peso institucional. O ex-presidente Lula tem a força carismática, a popularidade, inclusive no meio empresarial. Por outro lado, o PMDB conta hoje com os três sucessores constitucionais à Presidência da República: o vice-presidente, o presidente da Câmara dos Deputados e o presidente do Senado Federal. Não se esperava isso. Então, o PMDB está adquirindo força só pelo vazio que o PT está deixando na política. O PT desocupou o espaço que tinha. Não desocupou com Dilma porque ela não gosta de política. O PT começou a esvaziar com Lula.

Quando?

No começo de 2003. Uma das primeiras medidas que Lula fez votar foi a Reforma da Previdência, que nunca foi do programa do PT. Isso levou à saída dos que depois formaram o PSOL. Começou um processo em que o PT parou de ter um discurso, em que o presidente do PT é uma pessoa que fica em segundo, terceiro plano. É mais importante ser ministro de uma pasta secundária do que presidir o PT, ou ser líder do governo no Senado ou na Câmara. Quer dizer, os cargos essencialmente políticos foram sendo esvaziados em favor do ministério.

O que o partido defendia não era compatível com o que é possível fazer no Executivo?

Esse é um dos lados da questão. Mas poderia, ainda assim, explicar o processo, dizendo, por exemplo, que elegeu menos de 20% da Câmara e não pode governar sozinho. Há um discurso óbvio: o governo Lula foi fantástico do ponto de vista da inclusão social. Isso não teria sido possível em uma política de enfrentamento. Se os meus amigos intelectuais tivessem conseguido botar para fora o Henrique Meireles (presidente do Banco Central), Lula não teria durado. O governo dele teria sido uma calamidade. Tudo o que PT fez no governo foi porque Lula amarrou os acordos. Minha questão é que não houve um trabalho político em cima desses acordos. E o ponto político essencial, na verdade, é ético. O PT era o grande partido ético brasileiro. Hoje, o PT conseguiu a fama de ser um partido antiético.

Na verdade, a fama é de ser um partido corrupto.

O PT teria de perceber que toda a inclusão social foi transformada em um grande projeto de consumo. Não se tornou um projeto ético. No século 19, o grande flagelo ético do Brasil era a escravatura. Hoje, o grande flagelo ético é a miséria. Não estou falando nem da pobreza. Um país com milhões de miseráveis é uma droga. Se o PT batesse nessa tecla o tempo todo e dissesse que está combatendo o problema, ele teria uma imagem ética que poderia sobrepor à discussão de corrupção.

O PT bate nessa tecla.

Não do ponto de vista ético. Ele bate nessa tecla do ponto de vista do consumo. Diz que melhorou o consumo das pessoas. A oposição, no discurso dela contra a corrupção, jamais levanta a questão da miséria. Não estou dizendo que a oposição quer a miséria. Mas em nenhum discurso dos líderes da oposição se vê a miséria como uma chaga ética. Para eles, a chaga ética é o desvio de dinheiro. Não parecem estar se ofendendo com a miséria. Esse era um ponto em que o PT poderia bater, mas não faz isso. Ele deixou todo o campo da discussão ética em mãos da oposição.

O PT não perdeu o discurso da ética depois de 2005, do Mensalão? O senhor fala em 2003.

Talvez você tenha razão. Falo em 2003 porque, em primeiro lugar, o PT não deu satisfação nenhuma da mudança de programa, da priorização da Reforma da Previdência. Segundo, o partido tornou-se figurante no projeto lulista. Em 2003, Lula está tomando assento, não dá tempo de fazer uma grande discussão popular. Em 2004 e 2005, tem o Mensalão e ele reage aumentando os programas sociais. Em seguida, vem a cornucópia de votos, o segundo mandato e toda a popularidade que Lula granjeou com os programas sociais. Deste ponto de vista, há uma época áurea, não só para o PT, mas para o Brasil.

Até no protagonismo internacional.

Tudo. Faltou estruturar isso em uma sustentação popular que fosse além do bolso. Acabou ficando muito o bolso. Até porque não dá para cobrar de um partido o que ele não poderia fazer. Fazer o enfrentamento do capital teria sido muito difícil. Agora, o que não deixa de ser meio triste é que houve 12 anos de governo do PT, sem enfrentar jamais o capital.

Sem ao menos negociar.

Negociar, negociou. Nunca houve um enfrentamento de choque. No entanto, esse setor empresarial está muito descontente. Pelo que ouvi dos empresários, o descontentamento inicialmente não era com o PT. Era com Dilma. Tanto que um ano atrás, os empresários poderosos queriam Lula. Não queriam outro. Em 2010, eles queriam Lula. Não sendo Lula, eles preferiam Serra a Dilma porque conheciam Serra. No ano passado, eles preferiam Lula a Dilma. E preferiam Lula a Aécio. Quando Lula não entrou na campanha, eles foram para o outro lado. E Dilma conseguiu, não sei de que maneira, torrar o patrimônio que ela amealhou no segundo turno.

Com um Executivo ausente e um Legislativo que só defende causa própria, o Judiciário está ocupando um espaço desproporcional?

Sim. O Judiciário, as profissões correlatas, a Procuradoria Geral da República, tudo. Há um processo pelo qual muito está sendo decidido por eles. É preocupante porque, em um Estado Democrático, eles devem ter um papel subsidiário. Não essencial. Um exemplo: a Constituição de 1988 é programática. Se um governo decidisse não promover o aumento real do salário mínimo todo ano, poderia ser questionado. É um aspecto que a Constituição propicia. Agora, o Judiciário está indo para questões muito específicas. Ele se beneficia do fato de ser atualmente o poder em última instância. É o que declara tudo.

Até permitiu que um juiz saísse com o Porsche de um réu.

Isso já é uma deformação grande. Há juízes que estão barbarizando. Um prendeu os funcionários da companhia aérea em Imperatriz quando estava atrasado para o embarque, o outro tripudiou a agente de trânsito no Rio de Janeiro. Ele teve o endosso do Tribunal de Justiça do Rio, o que é muito grave. Para a opinião pública, o Tribunal de Justiça proclamou que os juízes são deuses. Há duas profissões com péssima mídia. Juízes e médicos. São as duas profissões que estão com imagem junto à sociedade de gananciosas, de interesseiras, de egoístas, de pouca preocupação com o bem comum. Claro que a maior parte não é assim.

Por que os médicos? Por causa da reação de parte deles quanto ao programa Mais Médicos?

Coincide, mas a questão mesmo são os casos de abuso. Um relato recente foi o de Néli Pereira, jornalista da BandNews FM, que foi a um médico de convênio, em um bom hospital de São Paulo. O médico disse que não iria atendê-la, que não dava para fazer uma consulta boa pelo convênio, que pagava a ele R$ 40 reais. Falou para ela ir no amigo dele, que cobra R$ 700. E aproveitou para pedir para participar do programa dela. Um absurdo. Como um médico dá um malho de 700 paus e ainda acha que a pessoa vai promovê-lo no programa dela? É ser muito sem noção. Esse é um aspecto que está batendo na sociedade brasileira. Há pessoas que não se dão conta do que fazem. Acham normal agir de uma forma antissocial.

Às vezes, soltam a porta em cima da pessoa que está passando. Falta um comportamento ético?

É ético, mas se pode dizer que está faltando o mínimo de boas maneiras, de educação, de percepção do outro. A capacidade de se colocar no lugar do outro sumiu. Esse é um traço que está acontecendo. Quando se tem uma sociedade que só se orienta em direção ao consumo, é difícil estabelecer outra coisa. E acho que o mérito e o fracasso da inclusão social do governo Lula é ter sido basicamente pelo consumo. Por que é um mérito, uma vantagem? Porque pelo consumo se deu bem com o empresariado, com a produção. Quando se inclui pelo consumo, as pessoas compram mais geladeira, mais carne, mais ovo…

E também ficam mais felizes. Em um primeiro momento, elas não tinham geladeira e queriam ter. Faltou um segundo momento?

Acho que deveria ter sido simultâneo. Deveria ter insistido o tempo todo no tema que Dilma adotou – País rico é país sem pobreza. Se fosse usado pra valer, desde o começo do governo Lula, esse tema é um projeto de País. Não é um projeto de bolso. E você teria resultados. Um problema que os tucanos apontam muito, com razão, é o despreparo da mão de obra. Os programas sociais são bons, mas muitas pessoas entraram em uma zona de conforto, em vez de se prepararem para serem melhores trabalhadores.

Qual a saída?

Associar os programas sociais fortemente com educação, com treinamento da mão de obra. Claro que tem o Pronatec, tem programas bons, mas é preciso expandi-los.

O PSDB falou na campanha. Qual teria de ser o papel da oposição hoje?

O PSDB tem um espaço para abraçar a agenda do empreendedorismo. O PSDB está mais para ser um partido do grande capital do que do empreendedor. Não é social-democrata, mas tem um foco mais liberal. O grande espaço deles seria: “Vamos ser liberais”. O ideal seria uma meta do tipo ter dez milhões de empreendedores em quatro anos. O avanço para a economia seria significativo e o partido conseguiria uma base extremamente forte.

Mas como o PSDB está agindo hoje?

Sabe o caminho das rosas e o caminho dos espinhos? O PSDB está procurando o caminho das rosas, que é o mais fácil. E o caminho mais fácil é o quê? Há toda uma crônica policial que os favorece, assim como uma mídia que é simpática a eles e detesta o PT. Isso leva o PSDB a ter um projeto mais policial do que político. Eles estão vendendo para si próprios a ideia de que quase venceram a eleição. E isso os está cegando e os tornando incapazes de fazer uma crítica do que poderiam ter feito e de como atuar hoje. Hoje, está claro o seguinte: como o governo da Dilma foi uma decepção do ponto de vista econômico, então, a política que ela está adotando agora é tucana. Com ressalvas, mas é parecida com a dos tucanos.

Como Lula no primeiro mandato?

Com a diferença de que Lula recebeu uma herança difícil e Dilma pega sua própria herança. Como o Richa. O PSDB poderia ter muitas propostas, ser mais transparente. Um problema sério das campanhas foi o ocultamento de dados fundamentais. No fim das contas, o PSDB concordou com o Bolsa Família. Mas esse programa não é o grande motor das mudanças sociais. O grande motor é o aumento real do salário mínimo. E isso o PSDB iria reduzir, com o argumento bom de que a economia brasileira não comporta elevar o mínimo em termos reais. O PSDB poderia ter entrado nessa discussão depois das eleições.

O PSDB está muito raivoso.

Sim. Porque acha que, se sacudir um pouco a árvore, tudo cai no colo dele.

Há alguma semelhança entre o atual momento e a República do Galeão?

Não chega a ter. O projeto golpista contra o getulismo contou como atores principais a UDN, o empresariado urbano e rural, o governo dos Estados Unidos e os militares. Hoje, os militares não querem o poder. E os setores de direita querem muito pouca interferência estatal. E chamar os militares para não fazer nenhum tipo de intervenção estatal me parece contraditório. Então, os militares estão fora. O governo dos Estados Unidos talvez veja com simpatia a queda de Maduro (Nicolás Maduro, da Venezuela) ou uma derrota do grupo de Cristina (Cristina Kirchner, da Argentina) nas eleições. O Brasil é muito grande para o governo americano se meter em uma aventura. E nem representa nenhuma ameaça a eles. O máximo que aconteceu foi que, em um episódio, a Dilma fechou a cara para eles.

E o empresariado?

Eu me pergunto qual seria a lógica de trocar Joaquim Levy por uma convulsão social. Ele já responde a uma parte substancial das demandas do mercado. Ele talvez seja o único ministro indemissível desse governo. Não apenas porque ele é forte. Se ele se demitir, todos saberão que Dilma não apoiou seu projeto de recomposição da economia. Se eu sou empresário, eu prefiro o Levy a Armínio Fraga, se o preço de o Armínio entrar for um processo complicado deimpeachment, com manifestações na rua, com contramanifestações, greves. Se o governo for mais à direita pelo fruto de um processo não democrático, como aconteceu no Paraguai e em Honduras, haverá fortes riscos de a sociedade entrar em uma crise séria. Isso não é bom para os empresários.

Quem quer o impeachment?

Não vejo vontade de tirar a Dilma do governo, a não ser do próprio PSDB e talvez de setores da mídia. A carta-testamento de Getúlio tem uma parte muito triste afirmando que o povo nunca mais será escravo. Foi. Houve mais 20 anos de ditadura. Hoje, temos uma classe dos mais pobres com muito mais autonomia. O pobre de algumas décadas atrás era mais humilde. Hoje, é muito mais afirmativo.

Qual é sua posição em relação à regulação da mídia?

O que a esquerda tinha de fazer é constituir órgãos de mídia. Nestes 12 anos de governo do PT, não fomos além de uma proliferação de blogs, que alguns chamam de sujos. Alguns são bons; outros são péssimos. Mesmo os melhores não cobrem o que o jornal cobre.

O que a presidenta Dilma pode fazer para afastar a ideia de impeachment?

Dilma deveria fazer política, no sentido de reconquistar o eleitorado. Enquanto a oposição faz coisa de polícia, e não de política, o governo não está fazendo nenhuma das duas coisas. Por que Dilma foi escolhida? Eu sempre tive a convicção de que Patrus Ananias teria muito mais o perfil (para a Presidência), por ser alguém que teve sucesso nas políticas sociais, que já tinha exercido cargos de chefia, ter uma origem no PT mais antiga e circular bem politicamente. Provavelmente, Lula a escolheu porque achou que dos nomes possíveis do PT era a mais próxima do empresariado. Eu pensava que ela iria fazer uma política mais de direita, mais próxima dos empresários.

Por quê?

Dilma não parece ter muita simpatia por um elenco de temas de esquerda. Ela nem tem familiaridade com os termos. Tempos atrás, ela falou sobre opção sexual e não orientação sexual. Um presidente da República que vai falar tem de ser brifado. Nenhum presidente ou chefe tem de saber tudo. Ele tem de saber menos do que cada um de seus ministros. Mas ele tem de fazer política.

Para isso, ele tem de ouvir.

Dizem que ela intervém demais nos ministérios, que não tem muita confiança (nos ministros). Tivemos uma eleição mais alicerçada nos defeitos de um candidato do que nas qualidades do outro. Não foi uma eleição em busca do melhor. E estamos com um problema grande hoje porque não vemos uma saída. Não vejo um horizonte de melhora na disputa política. Mas vamos pensar no que é melhor para o Brasil e não para o PT.

O que é melhor?

Que Dilma termine o mandato em condições razoáveis. Qualquer outra coisa seria dramático. Se Dilma acabar renunciando, ou pior ainda, se sofrer um impeachment, este País vai ficar em um conflito muito grande. Não adianta Temer fazer um governo melhor, porque a temperatura estará aquecida. Mas vamos pensar em 2018. O PT pensa no Lula e o PSDB, pelo visto, vai de Aécio, Serra ou Alckmin. Do quarteto que toma decisões, o único que não deve concorrer é o Fernando Henrique. Beto Richa, que poderia entrar no clube depois de o PSDB ter perdido em Minas, está sob um tiroteio muito forte.

Há risco real de impeachment?

Não temos prévias disso. A única prévia é o governo Collor. Ele foi eleito, assumiu o cargo legitimamente, e acabou ejetado por uma agenda policial. Mas Collor não tinha nenhum apoio de partido ou movimentos e fracassou redondamente. Hoje, há a busca de um pretexto para tirar a Dilma. E ninguém tem argumento policial forte. Estão procurando.

E se encontrarem?

Se encontrarem algum sinal de que ela tampou a corrupção na Petrobras, vai ser feio, muito feio. Mesmo que ela tenha feito isso a contragosto. Mas o problema não é esse. O problema é o descontentamento de uma parte da sociedade. Quem votou nela está meio estupefato, pelo caminho que Dilma tomou e não se sabe se esta medicina mais neoliberal vai funcionar ou não. Outro ponto importante é que parte do PT tem posições conservadoras. Em junho de 2013, o partido condenou os protestos. Em outras condições, o PT nadaria de braçada. É a ideia de Sartre: há sempre razões para se revoltar. A revolta é legítima. Outra coisa: o PT virou o partido que diz em público compreender a corrupção. Isso é muito ruim. Os protestos contra as condições de encarceramento dos empresários saíram mais de pessoas ligadas ao PT do que de partidos de direita.

Tem chance de uma força política nova emergir no Brasil, como ocorreu na Grécia, com o Syriza?

Seria bom demais, mas acho muito difícil. É difícil porque o que se colocou à esquerda do PT, o PSOL, tem falhas sérias de projeto, de programa. Tirando Jean Wyllys e outros poucos, o pessoal não tem faróis muito altos. O nosso sistema tem uma coisa muito boa: o período de campanha eleitoral, sobretudo para presidente, ele destroça quem não tem consistência. Dilma levou três anos de cacete. Aécio levou um ano de porrada. Marina não aguentou dois meses. O fato de se ter um projeto mais ou menos consistente conta. Hoje, não visualizo isso em ninguém. O PT e o PSDB são fracos nesse ponto. Apesar de todas as críticas ao PT, acho o PSDB pior do que o PT, mas eu não gostaria de continuar votando no mal menor.

Link curto para a entrevista: http://brasileiros.com.br/950Xw
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Pascal Bruckner, o crítico da felicidade como obrigação

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“Não ser feliz, conforme os padrões dominantes, tornou-se sinônimo de fracasso
e de crise existencial.”

Juremir Machado da Silva

Ensaísta e romancista francês, nascido em 15 de dezembro de 1948, Pascal Bruckner é um escritor consagrado, com mais de 15 livros importantes publicados e traduzidos em vários países. Analista de temas de impacto no cotidiano das sociedades pós-modernas, hipermodernas ou da modernidade tardia, ele só poderia figurar na seleta lista de palestrantes do ciclo Fronteiras do Pensamento, com apoio da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Bruckner fez parte do chamado grupo dos “novos filósofos”, junto com Alain Finkielkraut, Bernard-Henri Lévy e André Glucksmann, uma turma de pensadores, “filhos de maio de 1968”, que atacou o marxismo, o estruturalismo e os totalitarismos de esquerda e de direita num tempo em que as ditas utopias revolucionárias ainda incendiavam a imaginação de estudantes e de intelectuais dispostos a mudar o mundo.

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Bruckner fez parte do chamado grupo dos “novos filósofos”, junto com Alain Finkielkraut, Bernard-Henri Lévy e André Glucksmann.

Um dos seus temas mais relevantes é o do culto à felicidade. Em A euforia perpétua, ensaio sobre o dever da felicidade (2002), ele investiu contra um dos pilares do senso comum pós-1968: o imperativo categórico, a obrigação de ser feliz, um imaginário que gera frustração e depressão. Essa perspectiva também é sustentada por outro filósofo francês, Gilles Lipovetsky, em A sociedade da decepção (2008), e pelo célebre romancista Michel Houellebecq em Extensão do domínio da luta(2002). Bruckner está em sintonia com o seu tempo e com a sua cultura. Se antes de 1968 as noções de dever e de sacrifício determinavam os comportamentos e produziam infelicidade, depois das revoltas estudantis que abalaram o mundo, impôs-se uma espécie de liberação total e de obrigação de satisfazer todos os desejos. A mídia passou a ter papel determinante na produção e consolidação dessa visão de mundo. Não ser feliz, conforme os padrões dominantes, tornou-se sinônimo de fracasso e de crise existencial.

Bruckner usa a ficção e o ensaio para pensar sobre problemas contemporâneos. Não teme fazer uma ficção ensaística. Já ganhou importantes prêmios literários franceses como o Médicis (1995) e o Renaudot (1997). O que é a felicidade? Como encontrá-la? O que fazer com ela? Pascal Bruckner indica que as pessoas têm dificuldade para definir felicidade, o que as deixa confusas em relação ao que buscar, ficam apáticas depois de conquistar alguma das supostas marcas da felicidade e desenvolvem temores de todo tipo, tornando-se frágeis por medo de perder, de não estar à altura das expectativas sociais e por comparação com outras pessoas pretensamente mais felizes. A felicidade teria passado a ser um atestado de êxito na sociedade. Não ser feliz equivaleria a não ser bem-sucedido, a ser um fracassado.

Outro tema recorrente de Pascal Bruckner é o amor. Em O Paradoxo Amoroso – Ensaio sobre as Metamorfoses da Experiência Amorosa (2011), ele sustenta que os amantes de hoje sofrem por excesso e não por falta. Quando tudo se torna possível e permitido, diariamente estimulado, a rotina e o tédio espreitam cada romance. Como renovar a experiência afetiva num universo de esgotamento das relações pela banalização dos rituais, dos limites e dos sonhos?

Michel Houellebecq fala na sexualidade como um sistema de hierarquia social. Não é incorreto sugerir que para Pascal Bruckner a felicidade é um sistema implacável de distinção social com forte influência da mídia e da indústria cultural, temas que têm sido estudados pelos pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS nas suas investigações de estudos culturais, imaginário e espetacularização da sociedade. O professor Francisco Rüdiger, por exemplo, é autor de O amor na mídia – problemas de legitimação do romantismo tardio (2013), obra na qual aborda a procura incessante das pessoas pelo bem-estar orientado, essa era do terapêutico, do desenvolvimento pessoal, dos manuais de autoajuda e do culto ao corpo perfeito e da obrigação de realizar-se inteiramente. De maneira sutil, Pascal Bruckner relança uma velha questão: tudo na vida se tornou, como denunciava Guy Debord, mercadoria? A felicidade é um produto a ser comprado e consumido?

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REFERÊNCIAS

BRUCKNER, Pascal. A euforia perpétua. Rio de Janeiro: Difel, 2002.
_____ . O Paradoxo Amoroso – Ensaio sobre as Metamorfoses da Experiência Amorosa. Rio de Janeiro: Difel, 2011.
DEBORD, Guy. A Sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
HOUELLEBECQ, Michel. Extensão do domínio da luta. Porto Alegre: Sulina, 2002.
LIPOVETSKY, Gilles. A sociedade da decepção. Bauru: Manole, 2008.
RÜDIGER, Francisco. O amor na mídia – problemas de legitimação do romantismo tardio. Porto Alegre: Editora da Ufrgs, 2013.

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Juremir Machado da Silva é doutor em Sociologia pela Universidade Sorbonne (Paris V) e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS. Publicou 30 livros individuais, entre os quais A sociedade “midíocre” – passagem ao hiperespetacular, o fim do livro, do direito autoral e da escrita (Porto Alegre: Sulina, 2012).